Análise | Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi

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Por mais belo que seja, o estado do Mississipi tem sua imagem associada a tensões raciais. Lá, o preconceito contra pessoas negras, herança dos tempos de escravidão, é uma ferida que ainda encontra problemas para cicatrizar. O estado sulista já foi palco de inúmeros filmes abordando o tema, como Fantasmas do Passado e o contundente Mississipi em Chamas, e  com Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi não é diferente. Presente em vários festivais de cinema (angariou três indicações ao Oscar), o longa dirigido por Dee Rees adapta o livro de Hillary Jordan, trazendo às telas a histórias de duas famílias marcadas por sofrimento e isolamento, social ou geográfico.

Henry McAllan (Jason Clarke, de Os Infratores) é um homem rústico pertencente a uma família racista que decide começar uma vida como fazendeiro no Mississipi. Sua esposa, Laura (Carey Mulligan, de Shame), é dedicada à família, mas não encontra felicidade no novo lar. Ela possui uma atração pelo cunhado, Jaime (Garret Hedlund, de Na Estrada) de  um jovem boêmio que volta da 2º Guerra Mundial com um trauma muito forte, encontrando na bebida o seu refúgio. Outra família apresentada é a de Hap Jackson (Rob Morgan, de Luke Cage), homem negro e bastante trabalhador, que aceitou o fato que brancos e negros não podem ter um convívio harmônico. Ele é casado com Florence (a cantora Mary J. Bigle) e pai de vários filhos. O mais velho é Ronsel (Jason Mitchel), que também acaba de voltar da guerra, traumatizado. Uma amizade entre Jaime e Ronsel, na verdade um meio para que ambos expurguem seus demônios, pode encaminhar o destino das duas famílias para uma tragédia.

Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi possui um elenco impecável

Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi é um drama de primeira, como há muito eu não via. Visceral, forte e, principalmente, pessimista. Em nenhum momento do filme encontrei uma deixa para me sentir aliviado, pois a suspeita de que algo ruim está para emergir se fez presente durante toda a projeção, mérito do roteiro de Dee Rees e Virgil Williams. Ao mesmo tempo é um deleite técnico: a direção de fotografia de Rachel Morrison (primeira mulher a ser indicada ao Oscar nessa categoria) é espetacular, com cores escuras e sujas que trazem o espectador para aquele ambiente nada acolhedor, assim como a direção de arte e figurino.

Ouso dizer que filme possui o melhor elenco do ano. Todas as atuações são, no mínimo, soberbas. Jason Clarke está ótimo como Henry, firmando-se como um dos melhores atores da atualidade; Carey Mulligan acrescenta mais uma personagem sofrida a sua filmografia, mas com o mesmo talento que encantou a todos cantando New York, New York em Shame; Rob Morgan é uma grata surpresa, numa performance repleta de camadas, e Mary J. Bigley fez por merecer suas diversas indicações ao prêmio de atriz coadjuvante (inclusive ao Oscar), uma vez que sua Florence é a alma do filme. E temos a revelação Jason Mitchell, retratando bem o soldado que retorna para casa e não é bem acolhido pela sociedade que lutou para defender, ainda mais se tratando de um negro.

Jason Clarke e Carey Mulligan estão excelentes em Mudbound

Não basta categorizar Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi apenas como um bom filme: trata-se de um dos melhores de 2017. É um retrato dessa cruel e triste realidade que, apesar de se passar na década de 40, poderia ser transposta sem nenhum problema para os dias atuais. Uma amostra de como a ignorância e preconceito resultam em lágrimas e, felizmente, numa obra memorável.

Nota: 

One thought on “Análise | Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi

  • 27 de February de 2018 at 12:20
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    Análise sensacional! Conseguiu captar todas as camadas do filme, das atuações e da mensagem tão forte passada. Parabéns!!

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