Alan Moore x Giancarlo Berardi | Por que Giancarlo Berardi é um roteirista muito melhor do que Alan Moore

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Alan Moore é um dos maiores roteiristas de todos os tempos. Ele revolucionou os quadrinhos com obras como “Miracleman”, “V de Vingança”, “Watchmen”, “A piada Mortal” e “Promethea”. Elevou a importância do profissional responsável por esta parte da produção de uma hq a patamares nunca antes alcançados e com status de super stars dos quadrinhos. Tecnicamente falando, ele é um artesão que procura lapidar seus roteiros à exaustão para alcançar a perfeição. Assim sendo, por Alan Moore não é um roteirista melhor que Giancarlo Berardi?

Giancarlo Berardi é um roteirista italiano que ficou mundialmente famoso por criar e contar as  histórias de Ken Parker e de Júlia (Aqui no Brasil sua revista é chamada de “Júlia, as aventuras de uma criminóloga” para não confundir com os livros românticos aqui publicados que também receberam o nome de “Júlia”). Enquanto Ken Parker tem como personagem central um homem e traz  histórias que se passam no velho oeste americano, Júlia é centrado em uma personagem feminina e mostra investigações criminais mais contemporâneas. Em comum às duas séries, está o fato de que Giancarlo Berardi consegue desenvolver personagens bastante humanizados e complexos, além de construir histórias  que conseguem mesclar, sempre na dosagem perfeita, humor, drama, reflexão e, como não podia deixar de ser, aventura.

Enquanto Alan Moore é mais reflexão, Giancarlo Berardi é mais sentimento.

Se fôssemos falar apenas na parte técnica, Alan Moore ganharia de Giancarlo Berardi de goleada. Enquanto Moore escreve roteiros no formato full script (descrição detalhada de cada cena), Giancarlo Berardi utiliza os roteiros layoutados (esboços desenhados de como serão as páginas). Mas, a parte técnica – a confecção do roteiro em si – acaba sendo menos importante do que a história que ele se pretende contar. E é neste quesito que Giancarlo Berardi acaba se destacando e se distanciando do roteirista britânico. Enquanto Moore está mais preocupado em burilar tecnicamente seus roteiros, Berardi está mais preocupado em lapidar seus personagens e suas histórias.

            Quando era publicado no Brasil por volta do final dos anos 70, Ken Parker trazia a seguinte chamada em sua divulgação: “Ken Parker, um herói humano”. Isto, por si só, já resume muito bem o que iríamos encontrar nas páginas daquela revista. Os personagens (as pessoas) não eram seres infalíveis e dotados de uma convicção inquebrantável: eles podiam errar e ficar cercados de incertezas que poderiam remoer suas almas. Além disto, o roteirista italiano tem um raro talento para tratar de forma delicada, inteligente e sensível assuntos como homossexuailsmo, perdas afetivas, diferenças de classes, intolerância, racismo e muito outros.

            Nas histórias de Ken Parker (e também de Júlia, a criminóloga), podíamos ler histórias de humor, terror, fantasia, investigação, drama, superação, reconciliação e todas as possibilidades que se apresentam em nossas vidas reais pois isto é o que Giancarlo Berardi sabe fazer de melhor: contar histórias humanas que se conectam imediatamente com quem está lendo.

Leia Ken Parker e entenda por quê Giancarlo Berardi é melhor roteirista que Alan Moore

E é aí, onde Berardi ultrapassa Moore.

Por mais espetacular que o roteirista barbudo de Northampton possa ser, sua obsessão por certos temas – quase todos voltados para o oculto e o profano – acaba, em minha humilde opinião, obliterando sua visão para o potencial humano em fazer não só o bem, mas, também, para fazer coisas banais, engraçadas, bonitas, românticas e engrandecedoras. O inglês tem medo de ser piegas e evita abordar certos temas ou o faz de forma mais artística que real. O italiano, por sua vez, sabe como caminhar por estes temas sem ser piegas. Por fim, os mundos de Moore sempre parecem mais escuros e pessimistas enquanto os de Berardi parecem possuir muito mais matizes e nos incutir os mais diversos sentimentos.

Talvez o fato de poder contar suas histórias com mais páginas (os fumettis italianos, não raro, ultrapassam 100 páginas por edição) facilite para o Berardi a desenvolver melhor suas tramas e personagens. Isto lhe dá todo o tempo necessário (e mais tempo, em quadrinhos, necessariamente significa mais páginas) para alcançar este objetivo. Moore, porém, obteve sucesso mais do que suficiente para transformar isto em liberdade e formatar suas histórias no tamanho e volume que desejasse. E, mesmo em muitos casos tendo se valido dessa liberdade para aumentar a quantidade de páginas de seus trabalhos (Como em “Do Inferno” e “The Lost Girls”, por exemplo ), ainda assim, ele preferiu mergulhar sua obra dentro dos recônditos escondidos e obscuros da psique humana enquanto Berardi sempre optou por desfraldar o lado humano de seus personagens apesar de todas as coisas ruins que permeiam o nosso mundo.

O volume de páginas e a regularidade (normalmente mensal) das publicações, aliás, apresentam mais um problema para os escritores: não é fácil manter o mesmo nível de qualidade das histórias de uma publicação de quadrinhos que se estende por muitos anos (Como são os casos de ken Parker e Julia). E isto mostra mais uma qualidade de Berardi em relação a Moore: uma produtividade imensa com qualidade constante (e sempre alta).

É preciso ficar claro, neste ponto, que também Alan Moore debruçou-se sobre histórias humanas e soube entalhar muitos personagens com características bastante verdadeiras. Entretanto, quando puxamos a obra do escritor inglês, percebemos que estas não são características que norteiam a sua produção regularmente.

Assim sendo, não é por tudo isto que eu escrevi que não gosto ou não reconheço o valor e a importância de Alan Moore. Ao contrário: reconheço, louvo e ele continua sendo um de meus roteiristas favoritos. Talvez o melhor de todos. Depois, é claro, de Giancarlo Berardi.

E não se esqueça: Quadrinhos não é só desenho!

One thought on “Alan Moore x Giancarlo Berardi | Por que Giancarlo Berardi é um roteirista muito melhor do que Alan Moore

  • 23 de March de 2018 at 14:40
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    É tão melhor celebrar a ideia de que os dois são ótimos e ponto. Os dois fizeram coisas memoráveis e sabem explorar como poucos a linguagem das Hqs. É tão mais fácil pensar assim e imaginar que gostamos dos dois e o mundo é maravilhoso só por conta disso.

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