Análise | The Cloverfield Paradox

5 (100%) 3 votes

Há 10 anos, um fenômeno tomou conta da internet. Um projeto misterioso criado pelo talentoso produtor/diretor/roteirista J.J.Abrams despertou a curiosidade de muita gente, com direito a teorias, criação de sites falsos e trailers que pouco explicavam do que se tratava.

O que mais chamava atenção eram as imagens captadas por pessoas correndo na rua de algo que parecia um monstro gigante invadindo Nova York. Só no dia 18 de janeiro de 2008 o público pôde ter acesso ao ótimo Cloverfield-Monstro (ignorem esse péssimo título nacional), um suspense recheado de momentos tensos e boas sacadas, usando o estilo found footage, na época não muito explorado, para mostrar um grupo de jovens fugindo da terrível criatura. Orçado em US$ 20 milhões,o longa rendeu oito vezes mais e ganhou uma legião de seguidores dispostos a desbravar a mitologia da criatura.

Em 2016, outra surpresa: um continuação/spin-off foi desenvolvida em segredo. Rua Cloverfield, 10 foi um dos suspenses mais rentáveis e elogiados daquele ano, com uma premissa mais intimista e com a ausência do monstrengo sapo/morcego/sei lá o que é aquilo, mas trazendo o monstro que habita dentro do homem como ameaça. Ao fim da projeção, o espectador sentia que algo grandioso estava sendo montado. A terceira parte vinha sendo anunciada há algum tempo, com o nome temporário de God Particle e programada para estrear nos cinemas em abril, mas ocorreu algo inesperado durante a exibição do Super Bowl, o evento esportivo mais assistido dos EUA: a Netflix não só comprou os direitos de lançar a terceira parte como também lançou o trailer com a bombástica revelação de que em poucas horas o filme estaria disponível para o serviço de streaming. Após esse ato corajoso e até descarado da empresa em pedir que os espectadores migrem da TV para a TV por internet, finalmente pudemos conferir O Paradoxo Cloverfield.

The Cloverfield Paradox conta com um grande elenco.

O longa comandado por Julius Onah tem sua trama ambientada em um futuro onde a humanidade está a beira de um colapso. As fontes de energia da Terra estão se esgotando, fazendo com que uma guerra entre nações se torne iminente. Um grupo de cientistas e engenheiros é encarregado de testar uma nova fonte de energia, um gerador de partículas, que, devido a grande periculosidade, necessita ser testado no espaço. A bordo da estação espacial Cloverfield, a tripulação precisa correr contra o tempo para não só salvar a humanidade como também suas próprias vidas, já que um teste no acelerador os transporta para uma realidade paralela.

O Paradoxo Cloverfield, assim como Rua Cloverfield,10, foi escrito sem pretensão de fazer parte do universo iniciado em 2008. Os dois filmes tiveram seus roteiros comprados pela Paramount e tiveram elementos inseridos e outros, modificados. Infelizmente, ao contrário do antecessor, O Paradoxo Cloverfield falha justamente em querer criar um universo expandido. Essa pretensão acaba por gerar um suspense genérico e bastante explicativo que tenta (em vão) emular o que Alien: o 8° Passageiro conseguiu. A tensão é mínima e ter personagens rasos não ajuda muito, o que inclui um alívio cômico que não funciona e uma tripulante chinesa (a sumida Ziyi Zhang, de O Tigre e o Dragão) que consegue entender o que todos os outros falam em inglês, mas se comunica em chinês. Vou nem falar sobre a escalação do porto-riquenho John Ortiz para o papel de um brasileiro chamado Monk (?!). O único acerto fica por conta de Gugu Mbatha Raw, que, além de boa atriz, possui um arco bem construído. Ainda há uma trama envolvendo o marido da protagonista e uma garotinha, na Terra, que em nada acrescenta a narrativa.

Parte da trama se passa na Terra, que passa por momentos difíceis

Tecnicamente, o filme apresenta bons efeitos especiais e tomadas estilosas, mas os furos no roteiro e já citada necessidade de entregar tudo mastigado ao espectador incomoda bastante. Em certa cena, Monk está assistindo uma entrevista com um escritor (Donal Logue, de Gotham) que sugere descaradamente como o monstro pode ter surgido no longa original. O problema é que a cena é gratuita demais, quase um insulto à inteligência de quem assiste.

O Paradoxo Cloverfield não chega a ser um desperdício total. Todavia, os produtores precisam compreender que a necessidade de contar uma boa história deve se ser superior a de criar um universo expandido (A Múmia, alguém?). Resta a esperança de que o próximo longa anunciado ainda para esse ano (título provisório de Overload, de Julius Avery) compense esse deslize. Porque eu, assim como milhões, desejo saber o que de fato nos encontrou…

Nota:

One thought on “Análise | The Cloverfield Paradox

  • 12 de February de 2018 at 18:50
    Permalink

    Uma coisa que me incomodou bastante foi que a maioria dos fenômenos que acontecem na nave não são explicados e nem fazem o menor sentido (O braço que é arrancado mas continua vivo e sabe onde encontrar coisas desaparecidas foi o ápice do non sense).

    Reply

Leave a Reply

%d bloggers like this: