Análise | Cinquenta Tons de Liberdade

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Muitas pessoas permanecem intrigadas com o tamanho sucesso da trilogia de Cinquenta Tons de Cinza nos cinemas. Inúmeras (ressaltando muitos,  muitos homens) se questionam qual o motivo de uma história clichê, com um roteiro fraco e atuações esquecíveis pôde gerar um sucesso de bilheteria expressivo. No entanto, o enigma é facilmente resolvível quando decidimos parar por apenas um instante e refletir que na indústria cinematográfica, o erotismo já foi o ponto chave de muitos filmes de sucesso. A única diferença é que o público alvo é massivamente masculino – sim, os homens. 70% deles, inclusive, consomem conteúdo pornográfico ao menos uma vez por mês.

Não é preciso gastar muitos neurônios para concluir, portanto, que uma expressiva quantidade de mulheres se dirige aos cinemas procurando avidamente uma parcela de representatividade nos cinemas, onde finalmente se retrataria um erotismo voltado para as mulheres, com uma figura de homem clichê, pré-constituída e preguiçosa (sim! Da exata forma que inúmeras mulheres foram retratadas para o deleite dos homens na frente das telas). Portanto, a falta de conteúdo erótico voltado para o público feminino nas telonas é o responsável por criar o monstro dos cinquenta tons: péssimo, mas ainda assim significativo.

Se você pensa, no entanto, que Cinquenta Tons de Liberdade, responsável por findar a trilogia, entrega o erotismo esperado em uma história voltada para mulheres, a decepção lhe atingirá como um raio nos torturantes 120 minutos de filme. Neles, nos é novamente entregue a frágil Anastasia (Dakota Johnson), com sua voz baixa e suas inúmeras cenas de nudez exaustivas enquanto Christian Grey (Jamie Dornan) continua, na maioria das cenas, bem vestido. Ressaltam-se suas tentativas miseravelmente problemáticas de imposição diante de um homem doentio, abusivo, controlador e podre de rico – o que, obviamente, o roteiro tenta nos fazer relevar por conta de seus escabrosos problemas psicológicos por conta da infância conturbada.

No desenrolar da história, inúmeros clichês machistas nos são apresentados com uma roupagem perturbadora de mulher independente: Anastasia vai poder controlar a casa, dando até pitaco na decoração. Anastasia vira diretora da empresa (que seu marido comprou, obviamente). Anastasia consegue, ainda, como a boa esposa que é, contornar todas as atitudes abusivas do marido (como ficar enfurecido com sua gravidez, ou com sua saída para beber com as amigas, ou com um cara bonito que Anastasia encontra quando está tentando fazer o seu trabalho).

O problema de tudo isso? É que são clichês e problemáticas puramente romantizados. Tudo bem se o seu marido gritar, ficar enfurecido ou bêbado, desde que depois ele se debulhe em lágrimas ou faça uma prova heroica de amor – como convidar os seus amigos para um passeio no jatinho absurdamente caro dele (dá até para reconhecer um pouco do personagem de Alexander Skarsgård em Big Little Lies).

Cinquenta Tons de Liberdade consegue ser um desserviço para as telespectadoras jovens, que podem cair na tentativa de romantização do abuso e entender que um homem descompensado precisa de sua ajuda para ser salvo (e ele vai mudar!); para as mais velhas, que conseguem identificar as problemáticas sufocantes de seu relacionamento nas telas e, veja bem, perceber como elas são “normais”. É um desserviço, ainda, para os próprios homens, que, mesmo consumidores assíduos de pornografia por motivos tão frágeis quanto a suposta magia do dinheiro que atrai Anastasia, entoam discursos hipócritas sobre como as mulheres são fúteis, já que todas são representadas pela protagonista.

Com um roteiro preguiçoso, cenas de ação mal encaixadas e destoantes, diálogos patéticos e uma deturpação problemática de um relacionamento saudável, o fim da trilogia traz o ápice da má atuação de Dakota Johnson e Jamie Dornan e a surpreendente conclusão de que o que já estava ruim pode, sim, piorar bastante. O filme consegue mascarar, infelizmente, o motivo pelo qual as mulheres procuram os filmes (de acordo com estudos psicológicos já realizados, pela insatisfação sexual que enfrentam a vida toda e o ideal de regozijo vivenciado por Anastasia). Destacando os carros, jatinhos e o poder econômico hilariantemente alto de Christian, é capaz que alguns se esqueçam qual é o verdadeiro atrativo. No entanto, se o intuito é encarar o filme como comédia, é inegável que rende boas risadas.

 

Nota: 

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