Análise | Trama Fantasma

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O cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson sempre foi querido por público e, principalmente, por críticos. Seja pela sua narrativa visual que emula o estilo Kubrickniano ou pelo imenso talento em conduzir atores e extrair as melhores atuações deles, vide Mark Whalberg e Burt Reynolds em Boogie Nights – Prazer sem Limites e Adam Sandler em Embriagado de Amor. Particularmente, sou fã declarado do diretor, embora eu, como muitos, o considero culpado por motivar a aposentadoria do ator Daniel Day-Lewis. Brincadeiras à parte, Lewis declarou que se desgastou muito no processo de preparação para a sua mais recente colaboração com o diretor, o soberbo Trama Fantasma, tamanho o perfeccionismo do diretor.

O ator, três vezes premiado com o Oscar de melhor ator (e indicado mais uma vez por este) vem de uma sucessão de personagens obsessivos, vide seu Daniel Plainview de Sangue Negro ou até mesmo o seu presidente Lincoln no filme homônimo, o que pode ter gerado um grande desgaste para o ator. Lewis é conhecido pelo modo de preparo intenso, como aprender a pintar quadros usando o pé esquerdo (Meu Pé Esquerdo, seu primeiro Oscar) ou exigir ser chamado de presidente Lincoln mesmo sem as câmeras estarem ligadas, e para Trama Fantasma, onde ele interpreta um metódico estilista, sua imersão não foi diferente.

Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps tem uma conturbada e estranha relação

Reynolds Woodcock é um estilista renomado, famoso por criar os mais belos vestidos para a realeza britânica na década de 50, sempre auxiliado pela irmã, Cyril (a ótima Lesley Manville, indicada ao Oscar como atriz coadjuvante). Viciado em trabalho e com uma rotina rígida, tem sua inspiração nas mulheres que surgem na sua vida, embora nunca tenha demonstrado algum sentimento por alguma. Eis que se encanta pela jovem Alma (Vicky Krieps, que em breve estará em A Garota na Teia de Aranha) e a torna sua principal modelo e amante, porém o distanciamento emocional não demora muito a surgir novamente, criando uma conturbada relação, uma vez que Alma é obcecada em ter Woodcock para ela.

Trama Fantasma é um estudo sobre a obsessão. Não apenas a de Alma em cativar o afeto e atenção de Woodcock ou do estilista em colocar no seu trabalho todas as emoções que ele se priva de compartilhar com seus criados e amante, mas também a obsessão de um diretor. Anderson entrega seu filme narrativamente mais simples, mas não menos visualmente detalhista. Assim como Sangue Negro (primeira colaboração com Lewis) e o excelente O Mestre, o cineasta presenteia o espectador com cenas lindamente compostas por um trabalho técnico de qualidade: os figurinos de Mark Bridges encantam pela precisão simétrica e beleza; a trilha sonora do habitual parceiro do diretor, Jonny Greewood, conduz o espectador por momentos estranhamente tensos ou não com grande maestria; e a fotografia natural e as belas locações deixam o longa esteticamente lindo como um vestido do estilista. Tanto talento reunido impede que o ritmo lento do filme se torne repulsivo.

O figurino e a fotografia do longa são um deleite técnico

Não há prazer maior no cinema do que contemplar uma atuação de Daniel Day-Lewis. Sua composição, seu maneirismo ou sua fala calma alternando com momentos explosivos fazem do seu Reynolds Woodcock o canto de cisne perfeito da sua carreira. Se não fosse pelo favorito Gary Oldman a estatueta de melhor ator, Lewis tinha chance maior de por as mãos no quarto título. Resta torcermos para que ele desista dessa aposentadoria tristemente precoce. Não é possível esquecer a brilhante performance de Vicky Krieps, silenciosa e comedida.

Não apenas um dos melhores filmes do ano, Trama Fantasma é um dos melhores trabalhos de um dos melhores diretores da atualidade. Uma ode ao cinema esteticamente convidativo e um espetáculo de atuações. Ganhamos uma obra-prima, perdemos um ator nato. Obrigado, Daniel.

Nota:

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