Análise | Professor Marston e as Mulheres Maravilhas

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A vida do Dr. William Moulton Marston, o criador da Mulher-Maravilha, foi tudo, menos clichê.

Em nossa análise sobre o livro “A história secreta da Mulher-Maravilha”, de Jill Lepore, nós percebemos que a criação da Mulher-Maravilha só aconteceu devido à confluência de, principalmente, dois fatores: a luta no início do século XX pelo direito ao voto feminino e à vida nada ortodoxa do Dr. William Moulton Marston com suas duas mulheres: Elisabeth Holloway Marston e Olive Byrne. O livro é rico no detalhamento de como estas duas influências permitiram que, em um determinado momento da história, um professor e cientista fracassado (mas extremamente confiante) conseguisse criar a super-heroína mais famosa e mais relevante para o feminismo de todos os tempos: a Mulher-Maravilha. 

Porém, mesmo tendo como pano de fundo três histórias absolutamente incríveis, o filme “Professor Marston e as Mulheres Maravilhas” acaba preferindo ignorar tudo isto e focar num fantasioso e bem comportado (pasmem!) triângulo amoroso fetichista.

“Professor Marston e as Mulheres Maravilhas” foi lançado em dezembro de 2017 com roteiro e direção de Angela Robinson, uma cineasta que, apesar de frequentemente tratar de temas gays e lésbicos em seus trabalhos, não tem a mesma ousadia em suas histórias e filmes. “Professor Marston…” tem uma direção simplesmente conservadora e burocrática, sem nenhum tipo de inovação ou beleza. Ela atende aos requisitos mínimos para que o filme não seja considerado um filme “B” e, talvez, esta seja a única coisa louvável em todo o filme. Mas isto, nem de longe, é o seu maior problema.



O maior problema do filme é que, apesar dele ser baseado numa história verdadeira, Angela Robinson parece estar mais preocupada em adaptar o incrível arranjo familiar do Dr. Marston para uma fábula clichê de um relacionamento poliamoroso do que em contar a história como ela de fato aconteceu.

É claro que numa história baseada em fatos reais é necessário, sim, adaptar, cortar e adicionar coisas que não necessariamente aconteceram. Porém, neste caso, Angela Robinson resolveu reescrever não só a história, como também as personalidades dos principais envolvidos nesta trama e, com isto, acabou diminuindo tudo o que havia de  extraordinário nos acontecimentos que culminaram com a criação da Mulher-Maravilha.

A importância e influência que a luta pelos direitos femininos no início do século é comprimido em uma conversa de umas duas ou três frases e depois não é mais mencionado. A menção a estes fatos deveriam ter pelo menos um pouco mais de atenção pois estão na fundação dos caráteres de Marston e Elisabeth.

A personalidade de Marston (interpretado por Luke Evans) também é pouco desenvolvida. No começo da história podemos ver um lampejo de sua arrogância e petulância (e também quando ele vem apresentar a Mulher-Maravilha para o editor da DC, Charles Gaines). No restante do filme, ele é um arremedo do homem descrito por Jill Lepore em seu livro. A cena onde ele se ajoelha com a esposa para pedirem perdão à amante chega a ser ridícula de tão forçada.

Melhor sorte tem a caracterização de Elisabeth Holloway (interpretada por Rebecca Hall). Ela consegue apresentar a mulher forte que era Elisabeth, mas acaba perdendo a mão pois a verdade é que Elisabeth real acabou aceitando o ultimato de Marston que disse que ou Olive iria morar com ambos ou ele iria embora com a amante. O amor entre Elisabeth e Olive não foi algo instantâneo e imediato como mostrado no filme. Foi uma construção que começou como um mal necessário, mas que evoluiu para uma união tão estável que resistiu por quase 40 anos após a morte de Marston. E tudo isto é perdido no filme pois Angela Robinson preferiu construir o famoso clichê de que em relacionamentos poliamorosos, quem dá as cartas é sempre a mulher.

Olive Byrne é mostrada como uma pacata dona de casa, mas na verdade ela trabalhava tanto o quanto Elisabeth (Ou até mais, uma vez que a responsabilidade com as crianças ficava por conta dela) escrevendo para revistas femininas e datilografando roteiros de Marston.


Quase tudo o que é mostrado no filme não aconteceu de fato. A personalidade de Marston era irritadiça e infantil. Ao mesmo tempo, ele era cheio de lábia e sabia envolver as pessoas com sua conversa. Os três moravam numa casa afastada da cidade e não no subúrbio então eles dificilmente tiveram problemas com vizinhos xeretas. O segredo do relacionamento dos 3 era guardado à sete chaves (Para seus filhos, Olive Byrne disse que o pai biológico delas havia morrido e só quando estavam adultos é que cedeu a pressão e lhes contou a verdade).

A questão do Bondage Feminino também não surgiu tão perto da criação da Mulher-Maravilha como o filme sugere.Desde quando Olive Byrne ainda era uma estudante, Marston já “brincava” com esse fetiche em seus experimentos junto às calouras da irmandade Alpha Omicron Pi, da Universidade de Tufts em 1925/26.

Ou seja, o filme “Professor Marston e as Mulheres Maravilhas” acaba sendo um desserviço tanto para a história do Dr. W. M. Marston quanto para a construção da Mulher-Maravilha pelo simples fato de que a diretora Angela Robinson, por covardia, preguiça ou conveniência, resolveu ignorar não só tudo o que serviu de base para a construção da personagem como também a (quase) inacreditável e (totalmente)  politicamente incorreta vida do (inesperado) criador da nossa querida Amazona de cabelos negros e laço dourado.

Nota: 

2 thoughts on “Análise | Professor Marston e as Mulheres Maravilhas

  • 19 de February de 2018 at 12:40
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    Muito interessante e bem embasada opinião. Parabéns e obrigado!

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  • 27 de July de 2018 at 15:54
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    A crítica do filme é interessante, me ajudou a notar certos detalhes que passaram despercebidos na primeira vez que vi. É interessante ver um filme que está baseado em fatos reais, acho que são as melhores historias, porque não necessita da ficção para fazer uma boa produção. Gostei muito de filme drama “Professor Marston e as mulheres maravilha”, não conhecia a história e realmente gostei. Super recomendo.

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