Análise | Todo o Dinheiro do Mundo

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A carreira do cineasta britânico Ridley Scott é marcada por clássicos como Alien: O Oitavo Passageiro, Blade Runner: O Caçador de Andróides, Thelma e Louise e Gladiador. Mas a última década não foi agraciada com filmes bons ou marcantes de sua autoria, com exceção do premiado Perdido em Marte (embora eu, particularmente, tenha gostado muito de Rede de Mentiras, de 2008). Aos 80 anos, Scott vem de uma frenética sucessão de filmes, deixando a impressão de que não para de trabalhar: Robin Hood, Prometheus, O Conselheiro do Crime, Exodus: Deuses e Reis e o recente Alien: Covenant não caíram nas graças do público e críticos, apesar do talento técnico e visual do diretor, evidenciando sua necessidade de tornar seus trabalhos mais acessíveis e financeiramente rentáveis. O anúncio de seu novo longa, Todo o Dinheiro do Mundo, baseado no livro de John Persons, atiçou a curiosidade de muita gente por se tratar de um evento real trágico que poderia se tornar algo interessante nas mãos de Scott. O que ele não imaginaria é que teria que enfrentar uma pós-produção complicada.

Ambientado na década de 70, o filme retrata o sequestro do neto do homem mais rico do mundo (naquela época), J. Paul Getty (Christopher Plummer), e o drama da mãe do garoto (Michelle Williams) para convencer o sogro a pagar os US$ 17 milhões exigidos pelos criminosos. Bilionário e rigoroso, Getty se recusa a ceder, acarretando eventos chocantes e com ampla cobertura da mídia.

J. Paul Getty (Plummer) é o homem mais rico do mundo durante a década de 70.

Quem já conhece o caso do sequestro de J. Paul Getty III (Charlie Plummer) sabe os tristes rumos que os envolvidos tiveram. O roteiro do longa prepara o terreno para o que está por vir, mostrando o cativeiro do garoto e sua relação com um dos sequestradores (o francês Romain Duris, muito bom) e o arco de Gail, mãe do menino. Michelle Williams está bem, mas abaixo de produções anteriores, e sua personagem tem ajuda do conselheiro e ex-agente da CIA, Fletcher Chase, interpretado pelo regular Mark Whalberg. Uma polêmica envolvendo a gritante diferença salarial entre os dois (Whalberg recebeu mais de um milhão de dólares contra apenas os mil dólares de Williams) para alguns poucos dias dias e regravações acabou atraindo uma publicidade negativa.

Regravações derivadas de uma polêmica ainda maior: a substituição do ator Kevin Spacey, envolvido em diversos escândalos sexuais, pelo premiado Christopher Plummer no papel do bilionário Getty. Spacey já tinha terminado suas cenas, mas os produtores resolveram mudar tudo, colocando Plummer (segundo Scott,a primeira opção para o papel) às pressas. E foi Plummer que justamente salvou o filme, entregando um personagem frio, mas ainda sim, compreensível, uma vez que seus motivos para não pagar o resgate possuem certa uma lógica. Caso o filme optasse por colocá-lo como protagonista central, sairia ganhando. O ator recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, mas pode soar para alguns como uma revidação da academia aos atos de Spacey.

Um grande talento de Scott é sua organização durante a produção de um filme, entregando tudo no prazo, portanto, é louvável o fato de ter conseguido regravar e lançar Todo Dinheiro do Mundo a tempo para a temporada de premiações. Mas, por outro lado, falha em não conseguir manter o foco no que realmente quer, deixando os dramas do garoto e da mãe alternando e perdendo em comparação com todas as cenas do magnata, que como já citado, devora todos os momentos em que aparece. Talvez seja culpa da montagem em cima do trabalho de Spacey. Nunca saberemos. Sobram várias cenas que pouco dizem ou acrescentam a narrativa, mas não tiram os créditos técnicos do filme, como a boa direção de arte, figurino e fotografia, principalmente nos enquadramentos envolvendo o bilionário que ressaltam seu isolamento.

Ridley Scott é um dos melhores cineastas da atualidade. Só está precisando se reencontrar e deixar essa necessidade de entregar algo visualmente grandioso se sobrepujar ao narrativamente grandioso, o que vem acontecendo em seus filmes. Basta ver que seus melhores trabalhos são mais contemplativos e intimistas, tudo que Todo Dinheiro do Mundo precisava ser. Talvez um pouco de repouso ajude.

Nota:

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