Análise | Motorrad

Rate this post

Com mais de 50 anos de carreira, José Mojica Marins é um dos cineastas brasileiros mais idolatrados. Pelo menos fora do Brasil. Não me entenda mal: claro que o eterno Zé do Caixão tem sua importância reconhecida aqui, mas seus filmes de terror são mais reconhecidos em festivais estrangeiros (onde é conhecido por Coffie Joe) e por fãs estrangeiros. Menos conhecido, mas ainda sim cultuado por amantes de terror trash, temos o carioca Ivan Cardoso, responsável por O Segredo da Múmia (1982) e As Sete Vampiras (1986). São alguns representantes da velha guarda do cinema de horror nacional, que vem agregando diversos estilos visuais ao gênero, como temas sobrenaturais regados a jumpscare (vide o recente O Rastro) ou o desgastado found footage (o fraco Desaparecidos, de 2011). E são essas recentes e decepcionantes produções que fazem grande parte do público brasileiro virar os olhos para o terror nacional e mirar em comédias globais sem conteúdo ou filmes de ação urbana (de qualidade irregular). É triste, mas é preciso admitir que é verdade.

Quando soube da existência do novo projeto do diretor Vicente Amorim (Corações Sujos), Motorrad, minhas esperanças de que o gênero terror fosse reconhecido cresceram: o tenso trailer mostrava um grupo de motoqueiros fugindo e sofrendo nas mãos de misteriosos assassinos, com uma boa fotografia, locação claustrofóbica e bons efeitos. As semelhanças com O Massacre da Serra Elétrica ou Quadrilha de Sádicos atiçavam. E ainda tinha o mérito de ter personagens e arte conceitual de autoria do popular quadrinista Danilo Beyruth (das MSP do Astronauta e atualmente trabalhando na Marvel).

Os personagens estão perdidos e em perigo constante

Filmada Serra da Canastra, em Minas Gerais, a trama acompanha o jovem Hugo (Guilherme Prates), que decide acompanhar seu irmão mais velho (Emílio Dantas) e seus amigos motoqueiros em um passeio numa trilha. Após passarem por um estranho muro que impedia o trajeto, se deparam com quatro sinistros motociclistas que jamais mostram os rostos e que logo demonstram desejo por sangue e barbárie. O plot não é original, mas o que importa é como é desenvolvido, algo que Motorrad não consegue ser. Pelo contrário, o filme consegue ser um desperdício de material e talento. Amorim é talentoso e possui um estilo arrojado, mas sua narrativa peca pela lentidão e falta de adrenalina que o longa precisava. Nas cenas de perseguição, tudo é bastante picotado e mal editado, fazendo com que o espectador não reconheça quais personagens estão ali. E olha que temos aqui uma ótima fotografia.

Falando em personagens, temos o clichê de personagens burros e até caricatos, como o maconheiro interpretado pelo péssimo Pablo Sanábio ou a única garota do grupo, a também fraca Juliana Lohmann. São tão mal construídos e carentes de empatia que cheguei a torcer pelos assassinos que, felizmente, geram bons momentos gore, como uma gráfica decapitação ou quando carbonizam uma pessoa. Os únicos trunfos no elenco são os irmãos protagonistas, principalmente o ótimo Dantas, porém sofrem nas péssimas resoluções do roteiro, como o confuso e inesperado desfecho comprova. É um final ambicioso, mas desnecessário, que destoa de tudo apresentado durante a projeção.

O assassinos são um dos poucos acertos de Motorrad

Fica a indagação de como um filme tecnicamente bem feito (com exceção da já citadas cenas de ação) e caro (6 milhões) não consegue causar um terço da tensão que O Massacre da Serra Elétrica conseguiu em 1974 com 140.000 dólares. Motorrad, no fim de tudo, é algo que funcionou apenas no trailer, uma chance perdida de cativar um público perdido ou mostrar que o cinema brasileiro consegue entregar filmes bons de todos os gêneros. Melhor rever os filmes do Zé do Caixão.

Nota:

Leave a Reply

%d bloggers like this: