Análise | Contos Malditos Volume 2

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Recife, capital de Pernambuco, é bastante conhecida por algumas histórias envolvendo o sobrenatural, tema abordado em HQs como Malassombro, do Recife Assombrado. E é justamente por crescerem num ambiente em que ouvir histórias da Perna Cabeluda, Loira do Banheiro e a Cumadre Fulozinha (que me assusta até hoje graças as histórias da minha avó, que afirma ter avistado a entidade quando jovem, na roça) fosse algo comum, que alguns artistas recifenses se empenharam em entregar a obra Contos Malditos Vol.2. Continuação de uma divertida e elogiada coletânea de contos de suspense e terror, a obra apresenta três causos escritos e ilustrados por grandes figuras do cenário dos quadrinhos pernambucanos. Causos que podem ser encontrados no canal do YouTube Segredos Malditos, onde essas histórias são narradas e encenadas de maneira amedrontante.

A Botija de Ciço abre a revista com o conto mais regional, com aspecto de histórias do interior. Com roteiro Bruno Antônio da Silva e arte de Felipe Soares, o primeiro causo traz dois jovens mochileiros que, sem lugar para passar a noite, se abrigam num bar na beira da estrada. Quando um deles sugere passar a noite no casarão abandonado ali perto são advertidos pela idosa dona do bar que o lugar é assombrado e quem entra lá só encontra loucura ou… morte. E conta-lhes a história do velho Ciço, que muitos anos atrás resolveu adentrar a casa para encontrar um botija que continha uma fortuna, mas só encontra fantasmas do seu passado que o levam a momentos perturbadores. O roteiro é bastante envolvente, mas o grande atrativo é a bela arte cartunesca de Soares que casa muito bem o terror. As angústias de Ciço são captadas com eficiência pelos belos desenhos, tornando a primeira história, de cara, a melhor da coletânea. A história já foi tema de um dos episódios do canal, como pede-se conferir a seguir:

 

Com arte de Jota Mendes, psicodélica e que chega a lembrar obras de cordel, e roteiros novamente de autoria de Bruno Antônio da Silva, a segunda história, O Cair da Estrela, é um presente para fãs de Sandman. Isso porque a trama reconta a queda de um ser caído e esquecido pelo seu pai que, após um tempo solitário, é cortejado por uma mulher misteriosa e uma legião de criaturas abomináveis, que o convencem a governar um reino de pagamento e sofrimentos àqueles que cometeram o mal em vida. Já dá pra decifrar quem acabar de ser criado… O Cair da Estrela pode não conter elementos de terror, porém funciona como um prelúdio do surgimento do mal eminente, mérito de Bruno e seu texto reflexivo.

Eis que, após dois contos eficientes, nos deparamos com uma fraca terceira parte. Decrescente é uma história de dois irmãos que atuam como socorristas em uma guerra. Após um ataque, eles se refugiam na mata, separados, e um deles começa a passar por um dolorosamente explícito processo de deterioração de seu corpo, antes de descobrir o trágico destino de seu irmão. As ilustrações são de Clari Cabral, que possui uma boa narrativa e traços lindos, mas seu trabalho é cruelmente prejudicado de falta de foco em algumas imagens. Não sei se foi algum problema na impressão ou algo proposital, mas resultou em um incomodo que impede a apreciação total da obra. O roteiro de Pablo Ferreira não possui falas, mas apresenta uma história com potencial que, infelizmente, não é aproveitando, deixando a sensação que o material foi entregue incompleto e confuso.

A edição de Contos Malditos Vol.2 possui um bom acabamento, com um formato maior que uma hq americana, papel de boa gramatura e ótimos extras, como storyboards e rascunho dos personagens das histórias. Possuir alguns erros de revisão no texto da segunda história e a fraca terceira parte são alguns pontos fracos que, no saldo final, não tiram a beleza do trabalho e iniciativa da talentosa equipe. Afinal, talento e terror combinados é tudo que os quadrinhos pernambucanos pedem e merecem.

Caso queira conhecer mais contos assombrados do canal Segredos Malditos, clique aqui .

Nota:

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