Por que a Forma da Água é digno do Oscar de Melhor Filme?

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A vitória da Forma da Água na principal categoria do Oscar (a de Melhor Filme) agradou algumas pessoas, mas foi alvo de críticas relevantes por uma parte do público. No entanto, as controvérsias são normais e esperadas em todos os anos, já que um filme traz reflexões e consegue impactar de forma diferente cada pessoa.

Um motivo sólido para embasar o audível burburinho que permeia os comentários negativos talvez seja a quantidade relevante de filmes indicados que ganharam a simpatia do público. Diferentemente de outras premiações,  em que alguns poucos filmes alcançaram um número significativo de espectadores e caíram em suas graças, o Oscar 2018 trouxe como indicados na categoria de Melhor Filme muitas histórias amadas, com as mais diversas abordagens.

Lady Bird traz uma compreensão profunda e real acerca das dificuldades na transição para a fase adulta, os conflitos familiares e as peculiaridades que permeiam as relações. Corra! é um primoroso terror psicológico que trata com genialidade do racismo velado e das dificuldades cotidianas enfrentadas pelos negros.  Call Me By Your Name é uma sensível e lírica história de amor genuína, que transpõe gêneros, preconceitos e tabus, e nos ensina a encarar os sofrimentos e o perpassar da vida de forma incomparável. Três Anúncios para um Crime traz uma discussão difícil acerca da resolução de crimes e da capacidade de lidar com o luto, a raiva, a vingança e o remorso. Trama Fantasma narra de forma meticulosa e complexa a história de um brilhante estilista obsessivo e a obscuridade dos traumas e relacionamentos. Temos, ainda, filmes com um tom político importante, como Destino de uma Nação, Dunkirk e The Post.

Dentre tantos filmes significativos e relevantes, o que levou a Academia a premiar A Forma da Água como o melhor entre todos eles?

Inúmeros são os artifícios que podem ser utilizados num filme para a sua construção e desenvolvimento. Além das atuações, a narrativa pode utilizar a fotografia, a trilha sonora, o figurino, a paleta de cores e elementos fantasiosos para compor a história. A Forma da Água consegue ser primoroso utilizando todos, todos os recursos para ambientar e introduzir um lindo conto fantasioso que guarda nas entrelinhas ensinamentos e críticas profundos contra o machismo, o racismo, a xenofobia e a ojeriza às diferenças.

Guillermo Del Toro sempre utilizou seus amados monstros para mostrar que a verdadeira maldade não vem necessariamente do desconhecido, mas caminha entre os humanos e se camufla no trivial. Nos presenteia, ainda, com uma ode aos que se sentem diferentes, esquisitos e escanteados – eles são os protagonistas, e são suas peculiaridades que os fazem especiais.

A forma da água é um filme que trata de temas profundos através de uma história de amor fantasiosa entre uma faxineira e uma criatura. Talvez algumas percepções se limitem a enxergar a estranheza de uma relação tão incomum, mas a mensagem que se busca passar vai além: o amor não é capaz de tomar as mais variadas formas, apesar de serem rechaçadas as que fogem ao convencional? É contada da forma menos tradicional possível uma genuína parábola de amor, em que o preconceito, o machismo, o racismo, a intolerância e a maldade humana são retratados de forma visceral. Se a sua visão se estende até a ínfima superfície e enxerga apenas o monstro e a faxineira, dificilmente sua mente percorrerá os tesouros que Del Toro deixa escondidos (e ao mesmo tempo explícitos) de forma tão brilhante.

Carregam muito do mérito do esplendor do filme a protagonista Sally Hawkins, com sua genial atuação que, mesmo sem diálogos complexos e falas elaboradas, transmite e se expressa tanto com olhares profundos e linguagem corporal; e Doug Jones, que trouxe para a criatura trejeitos humanos e uma sensualidade clara, mesmo com os traços primitivos que permeiam o personagem. A criatura, inclusive, fora inspirada no Monstro da Lagoa Negra e em lendas brasileiras – o Ipupiara (um dos monstros mais antigos do Brasil) e do Caboclo D’Água. Frise-se, ainda, a presença de Carmem Miranda na trilha sonora do filme.  

Numa combinação de complexidade e ingenuidade, Guillermo Del Toro nos entrega sua obra mais apaixonada e, por isso, a mais verdadeira. E é com o mesmo toque de paixão que o telespectador deve enxergar a arte criada pelo diretor para ser contemplado, em sua plenitude, com sua tão profunda essência. Sem dúvidas, um filme digno de Oscar.

One thought on “Por que a Forma da Água é digno do Oscar de Melhor Filme?

  • 3 de May de 2018 at 15:12
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    No resultado uma surpresa ao ver que o filme funcionou de forma maravilhosa pela grandíssima mescla, acertada, de humor, entretenimento e boníssima animação. Michael Shannon fez um ótimo trabalho no filme. Eu vi que seu próximo projeto, Fahrenheit 451 será lançado em breve. Acho que será ótimo! Adoro ler livros, cada um é diferente na narrativa e nos personagens, é bom que cada vez mais diretores e atores se aventurem a realizar filmes baseados em livros. Acho que Fahrenheit 451 sera excelente! Se tornou em uma das minhas histórias preferidas desde que li o livro, quando soube que seria adaptado a um filme, fiquei na dúvida se eu a desfrutaria tanto como na versão impressa. Acabo de ver o trailer da adaptação do livro, na verdade parece muito boa, li o livro faz um tempo, mas acho que terei que ler novamente, para não perder nenhum detalhe. Sera um dos melhores filmes de ficção cientifica acho que é uma boa idéia fazer este tipo de adaptações cinematográficas.

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