Análise | O Incrível Hulk

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A iniciativa da Marvel de criar seu estúdio cinematográfico para supervisionar suas adaptações rendeu, no início de 2008, o excelente e rentável Homem de Ferro. As portas para expandir o seu universo nas telonas estavam abertas e a cena pós crédito do filme estrelado por Robert Downey Jr. indicava que todas as próximas produções apontavampara a formação do ambicioso Os Vingadores. Sem perder tempo e numa parceria com a Universal, a Marvel Studios entregou em junho de 2008 o divertido O Incrível Hulk. Era uma aposta arriscada, visto que cinco anos antes, Hulk, comandado pelo premiado Ang Lee, naufragou nas bilheterias e dividiu fãs e críticos, devido à narrativa lenta, efeitos especiais regulares e ação ausente. Problemas que o estúdio trataria de amenizar com a contratação de um cineasta especialista em filme da ação, Louis Leterrier (dos bons Cão de Briga e Truque de Mestre) e com um novo visual digital para o verdão.

Outro diferencial era notado no roteiro, que diferente do filme de 2003, não apresenta a origem do personagem com todos os detalhes, deixando tudo resumido nos créditos iniciais do longa de maneira eficaz. Também não há aquele ar contemplativo e lento do filme de Lee: em O Incrível Hulk, sobra pancadaria brutal e perseguições. O filme se inicia num cenário atrativo ao público brasileiro, a favela da Rocinha, onde o cientista Bruce Banner se refugia do exército americano, comandado pelo general Ross. Infectado por radiação gama que o transforma num poderoso ser, Banner teme que o exército use seu sangue para fins bélicos e vive a procurar uma cura. Exposto, Bruce precisa se unir ao seu grande amor e filha de seu inimigo, a doutora Betty Ross, para encontrar um misterioso homem que pode ajudá-lo. O general Ross, por outro lado, também tem sua carta na manga: o mortal soldado Emil Blonsky, que se submeteu a mesma experiência de um certo supersoldado da Segunda Guerra Mundial, mas sofre alguns efeitos colaterais que acabam despertando algo abominável.

O ritmo do filme é mais frenético, como a ótima sequência no Rio de Janeiro (embora seja difícil de engolir o “portunhol” dos atores) ou a luta final no Harlem comprovam, mas também há cenas que, singelamente, homenageiam o tom melancólico e solitário do seriado da década de 70 (a música-tema da série é usada no longa), deixando notável a tristeza e sofrimento por quais Bruce passa. O filme ainda possui o mérito de não abusar de muitas piadas, afinal era o início da investida da Marvel Studios nos cinemas e o tom ainda estava sendo encontrado. Sendo assim, as cenas de humor são mínimas, mas muitos boas, como a recusa de Bruce em dormir com Betty sob risco de despertar o Hulk ou o encontro do protagonista com um segurança interpretado por Lou Ferrigno, o Hulk do seriado setentista e que dublou o grandão digital neste filme.

Por falar em Hulk digital, o personagem criado por Stan Lee e Jack Kirby recebe um tratamento melhor do que a versão de 2003. Embora nem de longe se pareça como seu interprete, Edward Norton, o monstrão aparece mais brutal e sujo, com veias e músculos bem feitos. O mesmo pode se falar do antagonista Abominável, bem mais detalhista e maior, mesmo que o visual seja diferente do reptiliano dos quadrinhos. A pancadaria entre os dois inimigos rende uma das melhores cenas de luta do UCM, algo que Ang Lee e seus cachorros-hulk nem chegaram perto de conseguir.

Edward Norton se sai muito melhor que Eric Bana como Bruce Banner, mandando bem em cenas de ação e passando para o espectador todos os tormentos de seu personagem. Infelizmente, sua química como seu par romântico é fraca, visto que Liv Tyler não tem o mesmo carisma e talento que Jennifer Connely, mas não não chega a comprometer o desenvolvimento da trama. O oscarizado William Hurt está ótimo como o incansável e falho general Ross, o único do elenco a continuar dando as caras no UCM (Capitão América: Guerra Civil), e Tim Roth, especialista em interpretar vilões, vide Rob Roy e Planeta dos Macacos, está bem como Blonsky/Abominável, embora seus objetivos sejam mal trabalhados pelo roteiro e suas frases de efeitos quando se torna um monstro são as mais clichês possíveis.

O Incrível Hulk teve uma produção complicada devido a Norton, ator conhecido por se “intrometer” demais no roteiro do filme, mudando cenas e falas. Como resultado, o ator foi substituído por Mark Ruffalo em Os Vingadores, por não possuir o espírito de trabalhar em equipe que a produção exigia. O longa de Leterrier é um dos mais esnobados e esquecidos do estúdio (muitos nem sabem que ele faz parte do UCM), além do ser o menos rentável de todas as produções (263,4 milhões), mas tudo é injusto. Trata-se um boa releitura do personagem e uma homenagem a um seriado que marcou uma geração, por apresentar uma ação descompromissada e uma história digna da fase Lee/Kirby.

Nota:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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