Olhar Crítico #4: Ágnes Varda sem teto nem regras

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Dia Internacional da Mulher. Um dia que não diz muito sobre o que as mulheres passaram, e passam ainda, com parte da sociedade que insiste em tratá-las como subespécie. O Oscar desse ano trouxe um discurso totalmente voltado à inclusão feito por Francis McDormand, que foi endossado pelas várias mulheres que concorreram neste ano, cuja mensagem é apenas uma: “inclusão”. O cinema já se ocupa de dar espaço para se retratar essa realidade já há algum tempo, com filmes desde o estereotípico Gone with the Wind e sua Scarlett, até as Sufragette (2015), Mulan (1998) e Belle (2015).

Um espaço conquistado a conta gotas, e por isso mesmo, aproveitando o mês de março, Olhar Crítico se propõe a tratar do trabalho de algumas diretoras mulheres, que traçaram sua história dentro do cinema, tornando-se ícones da sétima arte. E para abrir esse especial, trazemos a única diretora da Nouvelle Vague, pelo menos no cinema, francesa, uma pioneira que construiu seu caminho e deixou um legado importante dentro da arte sequencial.

Justamente por conta de sua indicação ao Oscar desse ano, trazemos até vocês, sem teto ou regras, Agnès Varda.

 

Primeiro, a New Wave

Acima, Band à part, de Goddard. Abaixo, a recriação de Bernardo Bertolucci, em Os sonhadores.

Antes de entender a importância de Varda para o cinema, é preciso entender o que foi a New Wave francesa, ou Nouvelle Vague. Pós Segunda Guerra Mundial, o embargo que o cinema sofreu na Europa – o domínio nazista baniu produções americanas, comédias, dramas e outros gêneros de outros países, restando muita propaganda a ser vista nos cinemas -. e nos próximos anos veríamos o surgimento de uma nova geração de diretores que iam de encontro aos orçamentos elevados, cenários elaborados e histórias em que os protagonistas buscavam o amor ideal ou uma ideia de felicidade rasa.

Uma nova tendência, a do autor-diretor (Cinema d’auteur), em que

Edição de 2017 da revista

o diretor era considerado como um escritor, com narrativa própria, e sua câmera era uma caneta em sua mão, por onde ele iria construir seu retrato do mundo. O uso da luz natural, atores amadores, câmeras de mão ao invés de tripés ou dollies, além de cortes abruptos para mostrar a passagem de tempo, foram adotados pelos diretores que adotavam os dilemas pessoais e o cotidiano mais jovem como temática. A Nouvelle Vague não é considerado como gênero, antes um movimento de diretores críticos de cinema (a maior parte escrevia para a revista Le cahiers du cinéma, dirigida por Andre Bazin) que prezavam a liberdade e o estilo próprio. Essa tendência revelou diretores como Goddard, Truffaut e Varda.

Cães de Aluguel foi dedicado, pelo próprio Tarantino, a Goddard.

O cinema era algo da alma, e o fluxo da alma não cabia em um roteiro delimitado e absoluto para a aproximação Avant-garde da New Wave francesa. O movimento perdeu força no começo da década de 1970, mas até hoje influencia algumas decisões no uso de técnicas de direção, com renomados diretores repensando iluminação e tomadas longas em seus filmes, como Quentin Tarantino, por exemplo.

 

O cinema de Varda

Antes de ser um membro do movimento francês, Agnès Varda é considerada como sua mãe, sua precursora, pois seu primeiro filme, La Pointe Courte (1954), já traz em si, mesmo de modo bem sutil, os elementos que caracterizariam os filmes New Wave franceses. A câmera de mão, bem irregular, está no filme desde sua apresentação. Dá pra perceber o amadorismo dos atores de apoio, todos da comunidade de pescadores Pointe-Courte, como os créditos do filme nos dizem. Aliás, o naturalismo new wave vem desde seu início, com uma panorâmica feita a partir do plano fechado em um tronco de árvore onde irão ser apresentados os protagonistas e a equipe do filme.

As marcações da primeira parte, que conta com a visita de um fiscal do governo como plano de fundo para o relacionamento em ruínas dos atores Silvia Monfort e Philippe Noiret são tão rústicas que percebemos que se trata de um filme, mesmo que retrate algo tão real e corriqueiro. Agnès deu os primeiros passos do que viria a ser a sua Nouvelle Vague dentro da própria Nouvelle Vague, sendo considerada, por esse filme, como uma das progenitoras do movimento.

 

Varda iria conseguir o brilhantismo desse estilo nos seus filmes seguintes, especialmente em Cléo de 5 às 7 (1962), meu preferido da diretora, que trazia a história de uma cantora e sua vida durante duas horas, momento em que sai da visita de uma cartomante por conta do diagnóstico de seu médico sobre ter câncer ou não. Aqui, o aspecto do cinema d’auteur é bem perceptível, pois a sensibilidade de Agnès Varda, que não era crítica de cinema, e sim fotógrafa, era diferente e suas composições procuravam retratar os ambientes com um olhar da fotografia, pesando bem a iluminação dos ambientes fechados e abertos, mesclando cor e preto e branco no início do jogo de cartas, o vestido branco em contrapartida do cenário com cores mais frias, escuras, destacando a protagonista usando a luz do Sol (e depois o oposto, com o vestido negro se misturando a um segundo plano mais brilhante). O enquadramento na cena do restaurante, mudando a todo momento o foco narrativo também é algo único de Varda, com seu estilo de direção fotográfica.

Veja a composição e o olhar fotográfico de Agnès em Cleo de 5 às 7.

Aqui, o aspecto psicológico está nos relacionamentos superficiais, no confronto da cantora com a morte e enquanto ainda é bela – “Enquanto sou bela, ainda estou viva”, ela se consola – e duas horas eternas, tal como nossa consciência funciona diante de um embate emocional tão grande.

Vagabond marca novos caminhos, com mais regularidade e uso mais pensado da luz, ao mesmo tempo em que mantém a essência sem teto nem regras de Varda.

Nos próximos filmes, com o esfriamento do New Wave, Agnès seguiu um caminho próprio, mudando e experimentando mais, sempre mantendo seu olhar sensível aos dramas pessoas dos indivíduos. Em 1985, rodou Sem teto nem lei, um trocadilho com o francês sans foi ni loi (sem fé nem lei), que serve para dizer que uma pessoa é totalmente só no mundo. A história da andarilha Mona e os eventos que precederam sua morte são mais estáveis, temos mais regularidade no uso das câmera, a cor, que ela também abraçou, mas ainda a luz natural brilhantemente usada, o elenco de moradores das comunidades onde o filme foi rodado e algumas tomadas que pagam tributo a Cidadão Kane, de Orson Welles, mesclando ficção com documentário. 

É ainda bom lembrar que nessa época o New Wave americano despontava, mas isso é assunto para outro post.

Por hora, ficamos com o legado de Varda, cujo filme mais recente, Visages, Villages saiu ano passado, mostrando o vigor da diretora em seus 89 anos de vida,  com um documentário sobre a vida e as pessoas, a meu ver. O filme concorreu ao Oscar desse ano, perdendo a estatueta para Ícaro, de Bryan Fogel.

Fica o convite para conhecer a obra dessa diretora eternamente interessada no desconhecido, como ela mesma costuma dizer.

E como não poderia deixar de ser, fiquem com um vídeo e um vislumbre do cinema de Agnès Varda com o trailer de Visages, Villages. Até a próxima semana, pessoal!

 

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