Análise | O Passageiro

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E lá se vão 10 anos desde que o veterano e talentoso Liam Neeson deu uma nova guinada na sua carreira. Lembrado por grandes atuações em filmes como A Lista de Schindler e Rob Roy, o irlandês hoje é mais conhecido pelo público como um grande astro de filmes de ação/suspense rentáveis. Tudo começou com o divertido Busca Implacável (que gerou duas continuações fracas) e rendeu uma leva de filmes, que incluem Esquadrão Classe A, A Perseguição, Caçada Mortal, Desconhecido, Sem Escalas e Noite sem Fim. Neeson tem a seu favor o fato de que a fórmula ainda não cansou, basta ver o retorno nas bilheterias e na boca das pessoas, e entrega mais uma atuação de “coroa mortal e porradeiro” em O Passageiro.

Demitido após dez anos trabalhando como vendedor de seguros, o ex-policial Michael MacCauley (Neeson) não consegue dar a má notícia à esposa (a sumida Elizabeth McGovern). Enquanto procura um plano, pega o mesmo trem que usou como transporte durante uma década, onde criou amizades e conhece muitos rostos que ali passam. Eis que surge a misteriosa Joana (Vera Farmiga, de Bates Motel) que, durante uma casual conversa, propõe um experimento: se Michael encontrar um passageiro(a), que não deveria estar no trem e que carrega um pacote importante, receberá 100 mil dólares. Ótima proposta para um desempregado, não? Só que o dia de Michael está prestes a se tornar um caos quando ele fica ciente de que, se não encontrar a pessoa até o fim do percurso do trem ou se sair do transporte, sua família será morta. Agora ele terá que correr para descobrir quem é o(a) passageiro(a) e em que realmente se envolveu.

Vera Farmiga propõe um perigoso experimento a Liam Neeson

A premissa pode lembrar o suspense Sem Escalas, em que Neeson interpretava um oficial disfarçado que precisava encontrar um assassino durante um voo e que mantinha a atenção do público até o fim. O mesmo ocorre aqui, onde o espectador se flagra tentando adivinhar quem é a pessoa que Michael procura ou entender quais os reais objetivos de Joana. O roteiro consegue subverter cada palpite com eficácia, além de colocar o personagem de Neeson em situações de roer as unhas, como numa cena em que ele fica pendurado embaixo do trem, ou uma cena de luta envolvendo um dos capangas de Joana, que o vigia. Pode-se dizer que é uma versão de Assassinato no Expresso Oriente com tiros e explosões (e mais mortes).

Com seus 65 anos, Neeson continua demonstrando vigor em cenas de ação e pancadaria, parecendo que estamos vendo Bryan Mills novamente. Seu desespero é visível, mas oscilante, uma vez que Michael não demonstra choque em algumas cenas impactantes para um ser humano comum, como na cena em que ele presencia o brutal assassinato de um amigo, e, na cena seguinte, age e conversa normalmente. Apesar de aparecer pouco, Farmiga entrega uma boa performance e uma boa vilã; já seu companheiro de Invocação do Mal, Patrick Wilson, como o ex-parceiro de Michael, é mal aproveitado em cenas previsíveis. O elenco ainda conta com o veterano Sam Neil (que parece não ter envelhecido nada!) como o ex-chefe do protagonista.

Liam Neeson mais uma vez se envolve em uma mortal conspiração

O longa é a quarta parceria de Liam Neeson com o diretor espanhol Jaume Collet-Serra, responsável pelos melhores filmes de ação do ator (Desconhecido, Sem Escalas e Noite sem Fim) e pelo recente Águas Rasas. Collet-Serra se tornou um dos cineastas mais requisitados por entregar obras baratas, rentáveis e de narrativa estilosa, exatamente o que vemos em O Passageiro. Sua técnica visual rende ótimas tomadas claustrofóbicas e aquela que, talvez, seja uma das mais bem-feitas cenas de luta sem corte do cinema, muito bem coreografada, mesmo que conte com alguns efeitos digitais.

Efeitos digitais que são usados com empolgação num explosivo clímax de fazer inveja a Velozes e Furiosos, mas que destoa de tudo apresentado antes, e a partir daí O Passageiro “descarrilha” (desculpem, não resisti). Quando tudo é revelado (cedo demais), o filme se torna apelativamente explicativo e previsível, algo de que conseguiu se afastar durante boa parte da projeção, além de se prolongar demais.

Fora o deslize no final, O Passageiro ainda é sim um filme digno da fase Neeson-porradeiro e certamente não será o último, visto que vem arrecadando bem nas bilheterias. Essa vertente é bem vinda como uma fuga para produções mais megalomaníacas que lotam os cinemas e que nem chegam perto de entregar algo de boa qualidade como a parceria entre Neeson e Collet-Serra, mesmo achando que seria bacana ver o ator em uma trama mais original e num papel que não remeta aos vários homens mortais que vem interpretando.

Nota:

One thought on “Análise | O Passageiro

  • 22 de March de 2018 at 21:55
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    Filme bom. Sou fã desse cara.

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