Análise | The Good Place

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A partir do momento em que passa a ter consciência sobre questões existenciais primordiais, o ser humano vê a sua existência atrelada à ideia da morte e da incerteza acerca do que o aguarda após o fim. O que nos faz aguentar a barra de ter o ceifar da morte pairando sobre nós é basicamente um misto de duas coisas: ignorância e memória fraca. Um assunto aparentemente tão pesado é tratado com a mestria do humor sarcástico e pessimista em The Good Place, seriado produzido pela Netflix, criado por Michael Schur (escritor do Saturday Night Live e coprodutor da versão americana de The Office) e com protagonismo da brilhante Kristen Bell.

No cenário narrado pelo seriado, a protagonista Eleanor (Kristen Bell) morre e, ao reabrir os olhos, vê-se no “lugar bom”, destinado a um número realmente diminuto de pessoas que realizaram boas ações quando em vida e que merecem, depois de todo o altruísmo e bondade, desfrutar das maravilhas do paraíso. O único problema é que Eleanor não teve uma vida coerente com tamanho regozijo. Sua vida foi repleta de más ações, egoísmo, maldade e grosserias a todos os que a rodeavam. Sua existência se pautava exclusivamente no benefício próprio, mesmo que isso custasse a infelicidade de todas as pessoas que conhecia.

Ao ser recebida de forma muito simpática por Michael (Ted Danson), o arquiteto do “lugar bom”, Eleanor o escuta narrar todas as benfeitorias, supostamente, por ela realizadas quando em vida (a doação de sua própria existência para a concretização de causas humanitárias) e é encaminhada a sua casa dos sonhos (bem diferente dos seus verdadeiros gostos), onde conhece Chidi (William Jackson Harper), professor de Filosofia com especialização em Ética e sua alma gêmea. Também é apresentada aos seus eternos vizinhos, Tahani (Jameela Jamil), uma filantropa inglesa que comandou diversas benfeitorias mundiais, e Jianyu Li (Manny Jacinto), um monge budista que fez um inquebrável voto de silêncio.

Eleanor conclui, assim, que fora enviada ao “lugar bom” no lugar da verdadeira Eleanor boa (que devia, portanto, estar sofrendo nas profundezas do “lugar ruim”). Convencida a tentar disfarçar suas imperfeições para permanecer no paraíso e se livrar da aflição eterna, Eleanor começa a se passar pela advogada humanitária quando, como por consequência dessa decisão, causa desequilíbrios catastróficos no “lugar bom”. Todas as suas ações egoístas ou erradas acarretam em situações bizarras, como o aparecimento de uma cratera ou o voo de camarões gigantes alados. Assustada com os abalos de grandes proporções, Eleanor não vê saída a não ser desabafar com sua alma gêmea Chidi, expondo a sua inadequação ao lugar em que se encontram.

Aproveitando-se do fato de que Chidi era uma pessoa de ética impecável quando em vida e, portanto, capaz de ensiná-la os fundamentos básicos da moral, Eleanor implora por ajuda para se tornar boa e fazer por merecer a estadia no “lugar bom”. Isso causa a aproximação dos dois e o despertar de ambos para questões que nunca antes lhes foram apresentadas.

Muito mais do que uma sátira sobre o que nos espera após o findar de nossas vidas, The Good Place nos apresenta de forma genial uma reflexão sobre os conceitos limítrofes do bom e do ruim, e das intenções que podem verdadeiramente permear as boas ações. Longe de estereótipos falhos que ilustram pessoas eminentemente más ou boas por meio da compilação de seus atos, o seriado causa uma autorreflexão sobre os defeitos que permeiam todos os seres humanos e o que devemos uns aos outros para merecer, ou não, a danação eterna.

Não existe uma fórmula da benevolência ou uma cartilha que aponte a maldade. Como seres humanos, somos intrinsecamente falhos e forçosamente nos encaminhamos à persecução da bondade. Não se pode controlar, no entanto, o que permeia a generosidade ou o que impulsiona o altruísmo. Seguir os parâmetros da benignidade não necessariamente nos fará merecedores do “bom”, assim como pitadas de malignidade não nos condenam ao sofrimento incessante.

O seriado não rende apenas a ponderação acerca dessas questões, mas traz boas risadas com o sarcasmo e a ironia de seus personagens, com falhas tão humanas que provocam identificação e hilaridade. Uma ode às imperfeições, com a escolha de um elenco com um humor inteligentíssimo e repleto da necessária diversidade, The Good Place provocará o riso enquanto lhe fará sentir o peso da iminência da morte.

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