Análise | Um Lugar Silencioso

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Após o comediante e roteirista Jordan Peele surpreender o mundo com o excelente suspense Corra! e faturar um merecido Oscar de roteiro original, nada e ninguém parece impossibilitado de realizar o mesmo feito. Basta apenas talento. Veja o ator John Krasinski, por exemplo: quem diria que por trás de um ator marcado pelo seriado cômico The Office seria responsável por um dos melhores filmes do ano até agora, o terror Um Lugar Silencioso? Mesmo já tendo se aventurado atrás das câmeras no drama Família Hollar (2016), é em sua nova empreitada que ele se revela um cineasta de horror e suspense de primeira, relembrando os bons tempos de M. Night Shyamalan.

Logo no prólogo, o espectador já é jogado numa realidade pós-apocalíptica perturbadora: um mundo onde os sobreviventes precisam permanecer no mais absoluto silêncio. Sem falas ou barulhos altos, caso contrário, predadores à espreita e sensíveis ao som (que o roteiro sabiamente opta por não revelar de onde surgiram) atacam brutalmente. Uma família de anônimos ainda está se adaptando ao fato que a humanidade foi quase extinta em menos de três meses quando uma inesperada tragédia muda drasticamente suas vidas (ouso afirmar que os primeiros 10 minutos de Um Lugar Silencioso superam dezenas de filmes inteiros sobre exorcismos e fantasmas que assisti recentemente). Tentando superar o trauma após um ano e lidar com a culpa e remorso, eles precisam encontrar um jeito para que a gravidez da mãe não seja um perigo a todos.

Assistir Um Lugar Silencioso renderá uma das mais agoniantes sessões na vida de vários espectadores que, assim como eu, prenderão a respiração em várias passagens no filme. E se uma obra alcança tal feito, é porque algo importante no nível de O Sexto Sentido foi entregue. Antes de tornar mais intensa a presença das criaturas assustadoras, o espectador é bem preparado para sentir tensão e medo com a sugestibilidade de perigo que o roteiro proporciona.

Na verdade, tudo funciona, a começar pelo primoroso trabalho de som, talvez o grande astro do filme, que consegue realizar algo clichê e cansativo em diversas produções, mas que funciona muito bem aqui: jump scares. Os sustos aplicados em Um Lugar Silencioso são funcionais em sua totalidade, quase nunca gratuitos. Outro grande acerto pode ser notado no citado prólogo: a trilha sonora envolvente de Marco Beltrami, que já compôs para vários filmes do gênero, mas que aqui mescla o frenesi com uma melancolia, gerando tensão e lágrimas com eficiência, principalmente no emocionante terceiro ato. E ainda temos bons efeitos digitais, que rendem às criaturas um visual ameaçador e crível.

E temos aqui personagens com quem nos afeiçoamos e nos importamos, graças a um elenco dedicado. Vindo do sucesso de Extraordinário, Noah Jupe (o filho) demonstra bem o que é ser uma criança que anseia em ouvir a própria voz e que precisa combater o constante medo. No papel da mãe, Emily Blunt, esposa de Krasinski na vida real, está ótima e protagoniza as cenas mais agoniantes no filme, provando assim como fez em Sicario: Terra de Ninguém e A Garota no Trem que é uma das melhores atrizes da atualidade. Krasinski, que também é um dos roteiristas, compartilha com o espectador todo o peso que carrega; suas derrotas emocionais e sua obrigação em proteger a família, gerando um dos momentos mais lindos no longa. Mas a grande revelação é a novata Millicent Simmonds, atriz surda que interpreta a filha mais velha da família, também surda. A jovem tem um arco interessante e um carisma cativante.

Um Lugar Silencioso se resume a um trabalho realizado com paixão e dedicação. Juntamente com longas recentes como Corra!, Fragmentado e A Bruxa, prova que se dedicar ao roteiro e usar os quesitos técnicos em favor dele gera obras importantes. Claro que é esperado um retorno financeiro, mas quando um estúdio visa apenas isso, catástrofes como A Noiva e Amityville: O Despertar surgem.

P.S.: Sugiro que você assista em alguma sala com uma ótima qualidade de som e com a menor quantidade de gente possível por perto, para ajudar na imersão. Bom filme.

NOTA:

 

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