Análise | Matadouro de Unicórnios

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Na década de 50, um americano solitário e pacato chamado Ed Gein chocou o mundo quando foi preso por assassinato e em sua casa foram encontrados diversos móveis e vestimentas feitas de ossos e pele de cadáveres que ele roubava de cemitérios. Seus crimes e métodos inspiraram grandes clássicos do cinema como Psicose e O Silêncio dos Inocentes. Anos mais tarde, Jeffrey Dahmer foi condenado à prisão perpétua por sodomizar, estuprar, assassinar e canibalizar mais de 16 rapazes ao longo da década de 80. O psicopata teve sua vida retratada em filmes e até em uma HQ publicada recentemente pela Darkside. Não bastasse serem fontes para diversas obras, esses famosos serial killers, assim como outros diversos, possuem um estranha peculiaridade: são famosos e adorados. Sim, esses assassinos não são apenas alvos da mídia como também têm uma imensa legião de fãs e até mulheres propondo casamento. E, em alguns casos, lucram (e muito) com isso. Todas essas bizarrices são tema da HQ Matadouro de Unicórnios, publicada pela editora Veneta e escrita e desenhada por Juscelino Neco.

O autor já tinha impressionado bastante em seu primeiro trabalho, Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço (cuja análise você pode conferir aqui.), uma trama surrealmente divertida e que homenageava várias produções cinematográficas B de terror, ficção científica e ação. A obra me cativou bastante pelo grande apego nostálgico que tenho a esses tipos de matérias, mas foi Matadouro de Unicórnios que garantiu a Neco uma vaga na minha lista de melhores autores nacionais. Um dos vários motivos para isso foi o uso do tema serial killers. Sim, eu sou um desses aficionados pelo assunto desde criança, colecionando livros, filmes, séries e quadrinhos que abordam as mentes perturbadas desses criminosos. Tal tema, casado com o já característico humor negro do artista, resulta numa HQ engraçadamente culposa.

A rocambolesca trama traz o azarado escritor Gonçalo como protagonista. Divorciado, sem nenhum sucesso publicado e encontrando conforto em bebida e pornografia, se vê obrigado a trabalhar como ghost writer para um estranho escritor. Trata-se de uma biografia do Maníaco do Shopping, um motoboy que se encontra preso por estuprar e matar várias mulheres (qualquer semelhança com outro maníaco que ganhou as manchetes em 1998 não é mera coincidência…). Após um encontro com a figura, Gonçalo se encanta com o status e atenção que esses assassinos recebem e decide se tornar um serial killer, mesmo sem possuir nenhuma vocação para isso. Surpreendentemente, ele vai se saindo bem nesse macabro “emprego” até descobrir as grandes diferenças entre ser um assassino no Brasil e um nos EUA.

 

Lendo o texto, como conhecedor da cultura de serial killers, posso afirmar que Juscelino Neco fez uma extensa pesquisa sobre o tema. Gein, Dahmer, Maníaco do Parque são mencionados ao longo da história e seus feitos são copiados por Gonçalo. Canibalismo e confecção de móveis são atos que o protagonista acredita serem fundamentais para ser um psicopata reconhecido, sem falar que comer carne humana economiza na feira do mês. Sim, a HQ possui um humor negro pesado, capaz de deixar alguns leitores rindo e refletindo se aquilo é certo. Basta ver o primeiro assassinato cometido, exageradamente sangrento e cômico. Flagrei-me gargalhando alto com uma frase envolvendo Fausto e Chapolin, uma esperta referência para aqueles que viveram culturalmente bem a década de 90.

Assim como Dolfilander, astro de Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço, Gonçalo é bastante engraçado e atrapalhado. A diferença é que o personagem é um cretino de primeira, praticamente um vilão. Mas o tratamento que ele recebe do roteiro deixa ele mais acessível e simpático aos olhos do leitor. As confusões em que se envolve deixariam Blake Edwards orgulhoso. Outro personagem de destaque é Getúlio, o escritor eunuco que pede ajuda a Gonçalo para escrever a biografia e que também rende a luta mais louca que já vi nos quadrinhos, com um final que arrancará risadas dos fãs de Stephen King.

Com diálogos inspirados e descontraídos e uma arte simples, Matadouro de Unicórnios é, desde já, meu quadrinho nacional favorito. Clamo para um dia se torne um filme, mas até lá, resta acompanhar o trabalho de Neco. Felizmente.

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