Análise – Dívida Perigosa

Rate this post

O Japão tem sido tema de interesse na indústria cultural ocidental já há algum tempo. A enorme discrepância de costumes entre o Império do Sol Nascente e a cultura de consumo americana alimenta as fantasias e o interesse do Ocidente. A reconstrução impressionante desse país, devastado na década de 1940 e que já figurava como uma das maiores economias do mundo na década de 1980, reforça essa curiosidade. Seja em filmes de samurais, em filmes de guerra, ou em filmes de máfia, o Japão é um tema de interesse para o cinema americano. Na década de 1980, diversos filmes foram feitos explorando a temática da tradicional máfia japonesa, a Yakuza, e suas estruturas familiares rígidas e cheias de códigos de honra. A maior parte desses filmes eram fitas de ação exageradas, com tramas pirotécnicas e pouca relação com a realidade, como o grande sucesso “Massacre no Bairro Japonês” de 1991. Mas foi com os diretores japoneses Takashi Miike e Takeshi Kitano que a temática da Yakuza chegaria à maturidade, em filmes como “O Ultraje” de 2010.

Em março de 2018, a Netflix lançou “Dívida Perigosa”, filme estrelado por Jared Leto que pretende seguir a linha dos filmes de máfia de Miike e de Kitano, e se mostra relativamente bem-sucedido. Na trama, Leto é um misterioso americano em uma prisão japonesa, que, após ajudar um filho de uma grande família da Yakuza (Tadanobu Asano), sai da prisão diretamente para tornar-se membro desse clã. Ao longo de diversas situações, o enredo vai descobrindo a dinâmica das famílias mafiosas enquanto segue aos poucos revelando seu próprio protagonista para o público. Ambientado na Osaka de 1954, o filme é fortemente influenciado pela temática da reconstrução japonesa, e da enorme influência, então recente, dos países ocidentais na cultura e economia da região. O título original (The Outsider) faz referência ao protagonista, mas serve também como lembrete de toda a presença ocidental no país da época, e, consequentemente, sua ligação com os negócios e a sobrevivência da Yakuza. O próprio reforço, por parte do filme, em mostrar o estranhamento dos japoneses em sua relação com aquele gaijin (nome pejorativo dado aos estrangeiros) demonstra o peso dessa presença para aquelas pessoas.

Marcado por um desenho de som silencioso (o filme quase nunca faz uso de trilha sonora), no qual barulhos diegéticos são o destaque (a chuva, uma mangueira, um helicóptero, o som de tiros), o filme demonstra uma preocupação em imprimir certo realismo a sua estética, mesmo que faça uso na fotografia de diversas composições típicas do cinema noir, como sequências escuras, com iluminação neon e forte uso de cores quentes em tonalidades frias. O filme parece nunca ansioso em partir para a ação, diferentemente de seus congêneres da década de 1980, mas sim construir tensão por meio do drama e pontualmente entregar cenas de violência extrema.

O roteiro de Andrew Baldwin é econômico, mas bastante bem resolvido, sem perder-se em firulas, ele mantem a história sempre em movimento, com sequências de poucos diálogos, mas que pontuam da maneira correta o desenvolvimento da trama, o que é percebido já no prólogo do filme, onde o vínculo do protagonista com a máfia é construído de maneira sucinta e eficiente. Esse tom marca o desenvolvimento de toda a trama, e é reforçado pela edição bastante desafetada. No roteiro, o espaço é dado para uma construção da trama por meio de elementos não-textuais, o que é uma opção bastante madura. Outro destaque fica por conta da oposição entre os chefes de duas famílias em conflito: um idoso tradicionalista e outro jovem e inserido no processo de reconstrução econômica via recursos ocidentais, o que demonstra o alinhamento do filme contra o peso da ingerência norte-americana no país.

A direção parece ter muito claro para si a necessidade de estabelecer o fundo histórico e cultural da trama para que ela funcione, e acerta fortemente ao sempre se utilizar de travellings que mostrem diferentes cenários da economia em recuperação japonesa (feiras de rua, galpões de trabalho), como também em cenas de transição (grandes fábricas, porto cheio de navios atracados), se utilizando de toda oportunidade para pontuar com elegância o cenário em que a trama ocorre. Outro elemento bastante explorado é o choque cultural que então marcava o Japão, uma cena que apresenta uma performance de teatro kabuki é seguida por outra que se passa em um salão de dança ocidentalizado, posteriormente vemos também um evento de Sumô, comprovando a mistura de diferentes estilos de vida na construção da vivência daquela população.

Se a direção de Martin Zandvliet e o roteiro de Andrew Baldwin parecem acertar em quase tudo, o mesmo não pode ser dito nem da trama, nem da performance de Jared Leto. Se por um lado o roteiro desenvolve seus diálogos, cenários e personagens com bom gosto, diversas das viradas da história parecem previsíveis e trazerem pouca novidade em relação a outros filmes vistos anteriormente. Outro ponto problemático é a composição do protagonista. Se o cuidado de Leto em compor trejeitos para seus personagens demonstra um esforço em entregar bons resultados, o ator às vezes parece estar calculando excessivamente suas atuações para ganhar prêmios e se provar um bom ator. A medida que o personagem é estabelecido e a trama se entrega a seus momentos mais dramáticos, o ator oferece uma grande atuação, mas ao longo da primeira metade do filme ele parece rígido e desconfortável em compor um personagem misterioso, mergulhado demais em pausas dramáticas. O esforço de Leto em dar complexidade a seu personagem transparece pesadamente, perdendo em envolvimento afetivo do público e naturalidade, o que contrasta com a honradez e lealdade que é transmitida com facilidade pelo excelente Tadanobu Asano.

Se provando uma versão americana competente e bem trabalhada dos filmes de Yakuza de Takeshi Kitano e de Takashi Miike, “Dívida Perigosa” é bem executado e com bom potencial de entretenimento. No entanto, o filme nunca se torna completamente envolvente ou memorável devido a sua trama ser parcialmente previsível e ter um protagonista que muitas vezes não parece natural. O esforço de Jared Leto, nesse caso, prejudica o envolvimento do espectador. Se ele relaxasse um pouco, “Dívida Perigosa” poderia ser um filme ainda melhor.

nota: 

Leave a Reply

%d bloggers like this: