Análise – 3% (Segunda Temporada)

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Em novembro de 2016, a Netflix lançava seu primeiro material original de produção brasileira: a série 3%. Derivada de um curta metragem distribuído por meio do YouTube, a série apresentava um futuro distópico no qual a gritante diferença social era sancionada por um rito social que perpassava toda a cultura daquela sociedade intitulado “O Processo”. Contrários à arbitrariedade d’o Processo, se situavam os adeptos d’a Causa. Misturando ficção futurista, folhetim e crítica social, 3% causou uma impressão forte, para bem ou para o mal. Enquanto alguns se aferraram à criatividade do mote da narrativa, outros simplesmente se incomodavam com a produção aquém dos habituais padrões de produção norte-americanos. De qualquer forma, a série chegou a ocupar o posto de série em língua não-inglesa mais assistida na plataforma de streaming, bem antes do megahit La Casa de Papel. Em sua segunda temporada, que estreou semana passada na Netflix, 3% retorna ostentando o mesmo perfil da primeira temporada.

O estranhamento é real, a série parece realmente ter dificuldade em estabelecer seu universo fictício no campo estético, já que a dramaticidade de seus diálogos, a sua direção de atores e execução de efeitos especiais nunca conseguem se livrar da tradição da produção televisiva do Brasil. Criativo ou não, 3% tem gosto de uma boa e velha novela. Por outro lado, a série apresenta outra temporada com um arco bem desenhado, episódios empolgantes e bem divididos e, principalmente, um universo que tem peculiaridades cheias de significados. Entre suas qualidades e defeitos a produção segue se mostrando bastante peculiar.

A galeria de protagonistas continua com uma dinâmica rica, e a alteração de arquétipos de cada um nessa temporada em relação à primeira é bastante curiosa. Enquanto Michele (Bianca Comparato) se torna exponencialmente mais ambígua, Rafael (Rodolfo Valente) vai se mostrando a cada episódio mais próximo de um herói, até mesmo o antagonista ambivalente Ezequiel (João Miguel) cumpre um papel completamente diferente na história em relação à temporada anterior.

Por vezes 3% se beneficia de sua brasilidade, como num ótimo episódio no qual uma festividade de rua remete diretamente ao carnaval, e que tem uma participação inspirada do cantor Liniker, ou por meio da trilha sonora, que usa com sabedoria as sonoridades do país. Em outros momentos, a tradição televisiva brasileira parece trabalhar contra a narrativa, que parece muito futurista para os diálogos melodramáticos que apresenta. Em sua dificuldade de se estabelecer 3% é de fato curiosa, peculiar, criativa e inovadora, mesmo quando essa tentativa de realizar um produto diferente a prejudica. Se a Netflix gostaria de realizar um produto diferente no Brasil, ainda que não seja impecável, a série aponta com coragem para o caminho correto.

 

nota:

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