Análise | WE3: Instinto de Sobrevivência

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Conhecido por bolar roteiros complexos e filosóficos, o escritor Grant Morrison possui obras que marcaram a indústria dos quadrinhos. Apesar de escrever o clássico Asilo Arkham (graphic novel mais vendida da história dos quadrinhos dos EUA), Liga da Justiça e Quarteto Fantástico 1234, foi na linha Vertigo que o escocês fez seu nome, vide Patrulha do Destino, Os Invisíveis e, principalmente, o Homem-Animal. Esse último teve grande impacto não apenas na carreira de Morrison como também em sua vida pessoal, já que todos os princípios ecológicos de Buddy Baker (identidade civil do Homem-Animal) foram adotados pelo escritor, que se tornou ativista de causas relacionadas aos animais e meio ambiente, além de se tornar vegetariano. Tais temas estão presentes no álbum cult da Vertigo, WE3: Instinto de Sobrevivência, que acaba de ser relançado pela Panini Comics

A trama apresenta três animais roboticamente modificados (um cão, um gato e um coelho) que são usados pelo exército americano para missões furtivas e de ataque rápido. Considerados obsoletos e prestes a serem sacrificados, são salvos pela cientista responsável por eles. Soltos na natureza, decidem encontrar um lar, mas precisarão combater alguns militares e outros experimentos, dando início a uma violenta caçada.

É possível notar algumas cutucadas no governo americano quando se nota o quão descartável é a vida de um soldado após o cumprimento de sua missão. As críticas também são fortes aos tratamentos dados a animais em diversos experimentos, sejam bélicos ou cosméticos. Tudo é apresentado por meio do trio mortal (que, para os saudosistas dos anos 90, lembra os animais de A Incrível Jornada), que possuem características distintas e diálogos curtos: o cão, fiel e líder; o gato, sanguinário e brigão; e o simpático coelho querem apenas voltar para seus lares, mesmo que tenham que trucidar dezenas de soldados. Eles matam para comer e sobreviver porque assim é a natureza deles, assim como é a do soldado obedecer e matar sem questionar.

A grande peculiaridade da obra é a narrativa cinematográfica. Em suas páginas, o leitor terá a sensação de estar diante de um filme ou de uma HQ que clama para ser adaptada para as telonas. Dois grandes fatores contribuem para isso: o detalhismo e contemplação sempre comuns nos trabalhos de Morrison, e a soberba arte de Frank Quitley. Eleito melhor desenhista por esse trabalho no Eisner, Quitley entrega belos quadros que exalam movimento e ritmo frenético, com cenas de ação regadas a violência explicitamente gráfica, com destaque para um combate contra ratos robóticos numa ponte. WE3 é um dos vários títulos em que a dupla Morrison/Quitley comandou, já tendo agraciado os quadrinhos com o clássico Grandes Astros: Superman e Os Novos X-men.

De leitura rápida (e dinâmica), WE3: Instinto de Sobrevivência foi lançado pela primeira vez no Brasil em capa cartão, mas ganhou uma edição definitiva com vários esboços e páginas cortadas (algo como cenas deletadas de um filme). Não somente é um dos melhores trabalhos da brilhante dupla como também um grande título do selo Vertigo. E uma obra violenta, reflexiva e visualmente linda não é algo que se deve deixar de ter em sua estante. Resta a torcida para uma boa adaptação cinematográfica (já cogitada).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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