Inspiração | Os Guerreiros da rua

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Hoje estou inaugurando uma série de entrevistas especiais, com a qual dei o nome “Inspiração”. É bem isso. As entrevistas são com criativos das mais variadas artes que nos encantam e que permeiam a cultura pop. Passarão por aqui roteiristas de quadrinhos e de cinema, diretores, quadrinistas, desenhistas responsáveis por design de personagens pro mercado de animação, entre outros.

Erickson Marinho – Diretor

Hoje começo entrevistando Erickson Marinho, aproveitando a finalização do seu filme: Os guerreiros da rua, uma ode à infância criativa não apenas de pessoas como ele, mas de nossa geração como um todo.

Erickson é roteirista e diretor, formado em Cinema de animação pela Aeso (o curso não existe mais), e com Pós-graduação em Estudos Cinematográficos, pela Unicap, e nos conta como foi seu processo pra pensar e realizar esse projeto que envolve cinema, animação, quadrinhos e música:

MaxCon – Como surgiu a ideia para o filme? Era com o pensamento para a forma de curta?

Erickson – A ideia de fazer alguma coisa com relação a minha infância eu já tinha há muito tempo; eu tive essa fase muito rica e isso eu devo muito à companhia dos amigos e às brincadeiras que a gente desenvolvia. Ano passado tive a ideia de concretizar essa ideia, aproveitando a fase da conclusão do curso de Pós que eu tava fazendo, esse seria o tema do meu TCC. O trabalho era pra ser entregue em novembro, mas em janeiro eu já tava começando a ter ideias, reunindo amigos antigos da infância, conversando pra relembrar histórias, e aí começou, de fato, a surgir mais exatamente o caminho pro filme. A princípio, seria um curta-metragem, mas já no roteiro eu notei que queria contar muita coisa, e acabou virando um média com 40 minutos. O TCC foi entregue no prazo, mas como tinha muito mais pano pra manga, pra essa ocasião foi entregue uma versão bem preliminar, porque o prazo pedia. Só agora tô trabalhando pra finalizar mesmo do jeito que eu quero.

MaxCon – Como foi isso de pensar em outras mídias para o projeto, o que te fez querer aproveitar a ideia da linguagem a qual você estuda pra transportar pra outros tipos de “produto”?

Erickson – O tema trans mídia foi abordado ao longo da Pós-graduação graduação e tinha chamado muito a minha atenção, porque dá pra ver que o cinema hoje em dia tem essas linguagens híbridas e isso eu achei interessante, surgiu essa ideia de transformar o projeto em uma obra trans mídia. O projeto tem esses outros membros: ele é um média, um vídeo clipe e um quadrinho. Cada um tem sua história e as três se complementam. 

Eu acho massa esses desafios de criatividade que podem aparecer pra gente resolver. Eu sou muito fã da trilogia Matrix, e eles tiveram um projeto trans mídia com (além dos filmes) animações, um jogo e tudo é complemento do universo que foi iniciado no filme. Eu me inspirei muito nelas ( irmãs Wachowski) nesse sentido, procurei assistir a documentários sobre eles, making of de seus filmes, aí, quando fui planejar o meu projeto, eu já comecei com esse pensamento voltado pro trans mídia, o tema do TCC é voltado pra essa expansão, porque eu já pensei qual parte da história ficaria em qual das mídias.

MaxCon – Sei que você já teve experiência de trabalhar com criança em outro filme, como foi no caso do curta “Botãozinho vermelho”. Mas agora o desafio foi outro (risos), trabalhando com cinco crianças que protagonizam esse filme. Conta da experiência vivida de lidar com isso, e qual a relação que ficou?

Erickson – São cinco crianças, tem mais um adolescente e um adulto no elenco. Toda parte organizacional nas gravações foi possível através da ajuda de Priscila Liberal, que foi a produtora do filme, e Claudio Marinho, que me ajudou na preparação do elenco. Nós três fizemos parte de um grupo de teatro, e muito da nossa experiência com teatro e dança, aplicamos no processo com os meninos. O filme tem muita cena de luta, os meninos lutam contra “seres fantásticos”, e tem coreografia de luta que foi criada com técnicas de dança durante os ensaios de preparação. Foi interessante porque são crianças da própria comunidade, que nunca tiveram contato com cinema, teatro ou dança, e, através dos ensaios do laboratório que fizemos, elas foram aprendendo. E aprendendo como é que se faz um filme durante o próprio processo.

Inclusive, eles não receberam o roteiro de uma vez, recebiam por partes, à medida em que cada cena ia sendo rodada, porque a leitura também não é um hábito muito constante na realidade deles e isso foi um recurso usado pra não assustá-los de cara. Mas fazíamos os ensaios, estudos dos textos várias vezes, e de várias formas, pra fixar e deixar a interpretação natural, não só com isso, mas também com o preparo na movimentação dos atores, antes de cada cena eram feitas dinâmicas pra ajudar a deixar os meninos um pouco mais à vontade, mais soltos em cena. Nesse sentido, até nos serviu de guia: percebemos o interesse maior dos meninos em tudo que envolvia ritmo, correr, esquivar-se, ritmo de dança e coreografia, aproveitamos pra seguir por esse caminho e agregar isso ao filme. O processo junto com os meninos foi muito legal, deu pra sentir que eles aprenderam bastante com a gente, assim como nós aprendemos com eles.

O que dificultou um pouco foi a maneira com que tivemos que nos adaptar às atividades dos meninos e as nossas, isso com relação a trabalho, estudo dos meninos, alguns têm atividades, como capoeira, um deles treina em escolinha de futebol, mas o empenho era tanto também por parte deles, que já teve casos de muitos deles chegarem dessas atividades ainda com gás pra querer participar dos ensaios para o filme. Era o tipo da coisa de nós sugerirmos que eles descansassem, mas ainda assim eles insistirem em participar e isso nos motivava.

MaxCon – Já que o filme se trata de algo tão pessoal, e se passa na comunidade em que você mora e sempre morou, rolou alguma homenagem, alguma espécie de “easter egg” interno, mas que também tenha uma possível relação com quem assistir?

Erickson – O filme lida muito com a imaginação, que tá colocada visualmente em forma de animação; o filme como um todo é uma homenagem à infância, a minha infância, mas que todo mundo que passou por algo parecido, quem brincou nas ruas, pode se identificar. Meu grupo de amigos, especificamente, com certeza vai se identificar com as brincadeiras referentes a portais que se abriam pra um mundo nosso, a gente se reunia pra planejar brincadeiras, desenhava, mas quem assiste também vai se ver, principalmente os que tiveram sua infância vividas nos anos 90; os desenhos da época serviram de inspiração, a TV Manchete tá muito presente, referências, como Cavaleiros do Zodíaco, que inclusive era tema de brincadeiras na rua onde cada um se via como um guerreiro, o filme tem muito essa pegada, eu tentei filmar o mínimo possível de coisas muito modernas, pra que ele parecesse ser situado de fato na década de 90, não consegui como gostaria, mas a referência está .


Com exceção de mim e do técnico de áudio Felipe Andrade, toda a equipe responsável pelas filmagens foi composta por amigos e parentes de Erickson. São pessoas que nunca trabalharam com cinema na vida, mas se mobilizaram para ajudar. Moacir Oliveira, que é pai de Mariano (o astro do clipe), por exemplo, ofereceu-se para ser assistente de set durante a gravação de algumas cenas. Em outros momentos, a casa dos próprios atores foram o cenário do filme.

MaxCon – Já que você falou sobre a animação, de que forma vai se dar essa interação do vídeo com o desenho aplicado?

Erickson – Todos os personagens e elementos animados em cena têm textura de desenho rabiscado feito à mão e pintura com lápis de cor, porque representam a imaginação de crianças que desenham seus sonhos, levando para o papel tudo aquilo que eles planejam para as aventuras. O filme ressignifica a paisagem da

Bastidores da produção

comunidade carente onde se passa o enredo, trazendo um olhar lúdico e fantástico para a periferia.

A imaginação consegue suprir toda a necessidade de aventura dos meninos. A falta de recursos é superada pela criatividade. Assim, uma mangueira, por exemplo, é um arco que atira flechas de energia. Uma tampa de panela é um escudo e um guarda-chuva fechado é uma espada.

Acrescentando: O filme se passa lá na comunidade de Ilha de Santa Terezinha, mas não tem essa pretensão de ser um “filme panfletário”, a falar de periferia nem qualquer coisa do tipo.

MaxCon – E como surgiu a parceria com a música, reforçando a temática ao melhor estilo “trilha de abertura pra anime”, e a concepção dela para o videoclipe?

Erickson – O próprio filme age assim, cada vez que eles vão brincar e fogem das suas “realidades”, aparece uma cartela, como se fosse um novo episódio, com narrador e tudo mais, então os animes dos anos 90 estão realmente bem presentes. E quem faz a trilha é meu irmão, Everton Marinho que é músico, mas que também viveu essa época, ele pesquisou, viu algumas referências e soube traduzir um pouco desse sentimento que eu queria passar, compondo a música-tema do filme e que também está no videoclipe.

A partir daí, fizemos uma parceria com o músico Flávio Soares, que topou de cara cantar a trilha, porque ele viu o projeto e se identificou por ser dessa mesma geração. Flávio é um cantor bem versátil (não sou da área de Música), mas percebi que ele consegue cantar algo mais lírico e também chega num estilo mais pop. Achei que a voz dele se encaixou perfeitamente para a proposta e o resultado de tudo ficou muito legal.

Segundo o diretor, as outras obras multimídias unidas ao filme seguem uma ordem cronológica, e é legal perceber que tudo isso foi pensado nos mínimos detalhes, fazendo um trabalho honesto e rico, que promete nos deixar nostálgicos. Mal posso esperar pra ver e é claro que vamos deixar você a par dos festivais pelos quais o projeto irá passar, bem como o lançamento de todo o trabalho relativo a essa obra.

“Pela cronologia, o quadrinho seria a primeira obra, pois apresenta Os Guerreiros da Rua em seu primeiro contato com o vilão. Com desenhos de Jota Mendes, cores de Marília Feldhues e roteiro de Erickson Marinho e Ary Santa Cruz. O videoclipe tem narrativa paralela ao filme e é focado em Mariano, um personagem que, no filme, observa Os Guerreiros da Rua de longe e vai aprendendo a brincar como eles. O clipe apresenta a canção-tema “Guerreiros da Vida (O Despertar do Poder)”, composta por Everton Marinho com voz de Flávio Soares, e tem cenas exclusivas que não estão no filme. Por fim, o média-metragem conclui tudo o que foi estabelecido no quadrinho e no clipe e abre margem para continuação. Cada obra, porém, pode ser compreendida individualmente.”

Acompanhe o projeto em suas redes sociais:
mais informações no email: osguerreirosdarua@gmail.com
Por enquanto, você já pode conferir o clipe, no mais, aguardemos! 🙂

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