Análise – DUNA

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Em 1965, Frank Herbert lançava o best-seller que se tornaria o livro de ficção científica mais vendido de todos os tempos: DUNA. A trama acompanha a saga do jovem Paul Atreides no Planeta Arrakis, lugar apelidado de Duna, por sua aridez e muitas areias. Atraído com a sua família para uma armadilha, Paul acaba por se tornar um messias entre a população local e iniciar um governo próprio. Além de seu êxito comercial, é destacável a enorme influência que o livro (e toda a série subsequente) teve sobre a cultura pop. A descrição do planeta Arrakis foi providencial para a construção da biosfera do planeta Tatooine, na série Guerra nas Estrelas, como também a formação do personagem Luke tem forte inspiração no desenvolvimento profético do jovem Paul Atreides. A série também teve enorme influência na construção do universo das Crônicas de Fogo e Gelo de George R.R. Martin, com uma trama que dá grande importância às questões geopolíticas em seu desenvolvimento.

Mesmo com toda essa relevância cultural, é no campo da conexão política com a realidade que a série DUNA tem sua maior importância. Inspirando-se sem pudores na miscelânea politicamente problemática que vinha se tornando a região do Oriente Médio durante as disputas da Guerra Fria, Frank Herbert metaforizava em tempo real, e muitas vezes profetizava narrativamente sobre as principais questões de conflito da região, que perduram até hoje. Mostrando o lado daninho da influência dos grandes impérios sobre uma região culturalmente vulnerável, e cheia de recursos naturais de interesse econômico, Herbert tocava em feridas bastante profundas de questões contemporâneas, e que se recrudesceriam nas décadas seguintes. Se, diferentemente das sagas escritas posteriormente por George R.R. Martin, a série DUNA possui uma divisão maniqueísta entre seus mocinhos e vilões (situação essa que vai se modificando ao longo do tempo), nenhuma outra série literária de aventura foi tão inovadora em englobar questões filosóficas, políticas e culturais. A correspondência com a realidade é tão vultosa que o autor não se poupa em fazer uso do termo jihad (guerra santa) na história, sem tornar simplória a formação desse conceito. A riqueza cultural, política e religiosa das questões debatidas são ainda aprofundadas nos maravilhosos apêndices, que apenas destacam a complexidade do universo construído. Ao início dos capítulos há excertos de obras fictícias daquele universo que suscitam discussões bem mais profundas e acadêmicas do que seria possível inserir no corpo do texto de um livro de aventura, demonstrando a sagacidade e seriedade de Frank Herbert com sua obra.

Embora o sucesso literário da série ter sido arrasador, e apesar da importância da saga para a construção do ideário pop contemporâneo, DUNA nunca conseguiu conquistar o êxito em suas adaptações audiovisuais que outras congêneres conseguiram, como exemplo as séries O Senhor dos Anéis, Harry Potter, ou até mesmo as próprias Crônicas de Gelo e Fogo. Em 1984, o jovem diretor David Lynch realizou uma grande adaptação do livro. Tentando condensar uma história complexa em apenas duas horas de filme, e procurando mimetizar o enorme sucesso dos filmes da série Guerra nas Estrelas (naquele momento em seu apogeu), a produção não consegue reproduzir a complexidade de sua trama a contento, além de parecer sempre um derivativo dos filmes de George Lucas. O próprio diretor, que então estava em uma fase onde testou diversos diferentes modelos de narrativas, nunca mais retornou a produções do mesmo estilo, tendo se especializado (e sido muito respeitado por isso) em obras mais surrealistas e com maior inventividade técnica. Em 2000, uma minissérie para a tv foi produzida adaptando o livro. Apesar de mais fiel e bem desenvolvida que o filme de 1984, a precariedade de seus efeitos especiais e a simplicidade da produção ofuscaram seu brilho.

Atualmente o livro DUNA foi relançado no Brasil em edição luxuosa da Editora Aleph, enquanto iniciam-se os burburinhos acerca de um reboot da série dirigido pelo célebre Denis Villeneuve, responsável pelas excelentes ficções A Chegada de 2016 e Blade Runner 2049 de 2017. Sem maiores informações sobre como será realizada a divisão da saga, e quantos filmes devem efetivamente ser produzidos, essa nova produção traz esperança para os leitores que anseiam por ver uma versão audiovisual de DUNA que faça jus à grandeza da série literária para a história da ficção científica.

NOTA:

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