Análise | Desejo de Matar

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Durante a década de 70, o cinema americano foi invadido por um tema presente em várias produções: violência urbana, principalmente ambietada em Nova York. Foram clássicas obras, como Serpico , Perseguidor Implacável,  o premiado Taxi Driver e, claro, o filme mais famoso da carreira do saudoso Charles Bronson , Desejo de Matar (1974 ). Apesar de vir de uma sucessão de faroestes, entre eles a Era Uma Vez no Oeste, foi no thriller dirigido por Michael Winner que atuou em sua carreira de forma invencível, num longo período de tempo com debater com os espectadores como vigilantismo e justiça com as suas próprias mãos. Sucesso moderado, gerou uma franquia de qualidade duvidosa e desgastada, reprisada à exaustão nas sessões do Corujão e Domingo Maior no passado, quando  filmes eram mais valorizados pela TV aberta, e até influenciou obras superiores com temática semelhante, Como o pouco conhecido Sentença de Morte , de James Wan e estrelado por Kevin Bacon, e Valente , de Neil Jordan.

O anúncio de uma refilmagem pelas mãos do cineasta Eli Roth e adaptando o livro de Brian Garfield para os dias atuais, que apesar de algumas mudanças sociais ainda continua violento, foi o bastante para chamar a atenção de alguns (poucos) cinéfilos. Em uma nação como os EUA, em que o porte de armas é facilmente acessível, massacres em escolas por arma de fogo e outras banalidades estão acontecendo ocasionalmente, esperávamos um Desejo de Matar que gerasse novas discussões e algum entretenimento descompromissado.

A trama é praticamente a mesma do original: Paul Kersey, cidadão pacífico, tem sua vida abalada quando criminosos invadem sua casa, matando sua esposa e ferindo gravemente sua filha. Diante  da ineficácia da polícia em resolver o caso, o homem declara guerra a bandidagem, agindo como vigilante e até ganhando apoio de grande parte da população. Por mais clichê que pareça, este plot digno de uma produção de Liam Neeson possui deixas para que dois lados opinativos discutam discutam diversas questões. Só que o roteiro de Joe Carnahan possui o defeito de ser parcial, escolhendo sempre vangloriar a justiça com as próprias mãos e nem dar uma brecha para o outro lado debater.

Isso é um grande impecilho para que Desejo de Matar supere o original, pois agregaria uma conversação com espectador que compensaria a ausência de cenas de ação competentes. Mesmo que o longa de Bronson não tivesse o fôlego de Operação França, seus tiroteios convenciam. Já nessa bem mais cara refilmagem, tudo sai pobremente orquestrado e sem preparo e suspense, chegando a uma cena tosca em que o protagonista é salvo por uma bola de boliche.

Ajudaria muito que o roteiro explorasse bem a dor de Kersey para ganhar a simpatia de público, mas fica difícil acreditar no personagem, que não demonstra a tristeza e indignação que o momento exigia. É possível atribuir tal deslize a péssima performance do canastrão Bruce Willis, de volta aos cinemas após algum tempo fazendo muitos filmes B de ação, num papel inicialmente oferecido a Sylvester Stallone (que aposto que faria um trabalho eficiente). Ainda há o pecado de desperdiçar atores de peso como Vincent D’onofrio e Dean Morris em papéis inexpressivos. Mas é bom rever Elisabeth Shue de volta às telas.

Outro culpado por essa tragédia é Eli Roth, que não consegue imprimir seu estilo marginal muito menos tentar algo novo. Vindo de filmes de terror gore e tentando se inovar com o terrível suspense  Knock Knock, Roth não entrega nem de longe algo memorável nem violento a ponto de chocar um público que digere programas policiais com tranquilidade.

Desejo de Matar nem se esforça pra chegar aos pés do original ou ao menos querer  entreter.  É um desperdício de um tema que se encontra fortemente presente na vida de muitos, preterido por um material genérico e esquecível. Quem sabe o Brasil não produz algo semelhante e até melhor, visto a triste situação que o país se encontra? Com certeza, renderia uma necessária discussão. Se Charles Bronson assistisse esse remake, haveria um novo Desejo de Matar e novos alvos.

Nota:

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