Análise – Anon

Rate this post

Quando a BBC lançou, em 2011, a primeira temporada de Black Mirror, tal lançamento gerou uma revitalização da narrativa de distopia científica na televisão e no cinema. O gênero, que ganhou imensa repercussão comercial na década de 1980 e, ao final da década de 1990, chegou a estabelecer a maior bilheteria do ano, o cyberpunk Matrix, teve um declínio suave nas décadas seguintes, tornando-se pequeno diante de fenômenos, como as franquias de aventura/magia e o cinema de super-heróis. Black Mirror não alterou essa lógica, mas criou um nicho peculiar para os fãs do gênero, especialmente de suas vertentes mais filosóficas: a distopia foi ressignificada socialmente, de grande gênero do cinema comercial para filão comercial rentável, mas discreto e um tanto hiperintelectualizado. Nesse contexto foram lançados filmes como Blade Runner 2049 e A Vigilante do Amanhã, com boa recepção de crítica e de parte do público, mas com números pouco impressionantes de bilheteria (principalmente se comparados ao sucesso de filmes como Matrix ou Minority Report há menos de duas décadas). Nesse cenário, a Netflix produz e lança o novo filme do veterano do estilo Andrew Niccol: Anon.

Anon não é uma superprodução, demonstrando o viés da plataforma de streaming em não se enganar com o nível de reverberação comercial que esse tipo de filme possui na atualidade, mas se mostra muito eficiente em servir de meio para um diretor e roteirista experiente demonstrar o escopo de suas habilidades para um público fiel, apegado ao estilo de narrativa proposta, exatamente esse segmento do público ressignificado por Black Mirror. Se o resultado da série, originalmente britânica e que, atualmente, é produzida pela mesma Netflix, tem se mostrado irregular desde que a meteórica empresa de distribuição online assumiu a produção, o resultado identificado em Anon é puramente satisfatório e consistente com a trajetória de seu diretor. Conhecido por roteirizar e dirigir filmes (alguns já clássicos) como Gattaca, O Preço do Amanhã e S1mone, além de ter sido responsável pelo roteiro do multipremiado O Show de Truman, Andrew Niccol é um narrador habituado à tradição da ficção distópica com temáticas filosóficas, gênero cinematográfico com descendência direta da literatura.

Nesse filme, ele conta a história de Sal (Clive Owen), um detetive que reside num futuro no qual todo ser humano possui um Olho (algo como um implante que permite a captura de sons e imagens e os salva, além de conceder informações automaticamente para o indivíduo sobre uma diversidade de pessoas e coisas que ocorrem ao seu redor). Em sua posição de policial, Sal possui uma série de acessos, conseguindo recuperar diretamente em sua visão uma infinidade de vídeos de situações diversas, que vão desde pequenos furtos a homicídios, como também possui a habilidade de transmiti-los por razões de segurança pública. O conflito se desenvolve quando ele é colocado para investigar uma série de crimes misteriosos que não constam no sistema de armazenamento chamado Ether (algo como uma Nuvem do futuro), o que o leva a entrar em perseguição à hacker Anon (Amanda Seyfried), que leva a vida a adulterar arquivos do Ether.

Estabelecendo-se como um noir futurista que possui um detetive solitário e uma femme fatale em um jogo de gato e rato, Anon se baseia numa estrutura cheia de situações tradicionais, como a solidão exacerbada do detetive que remói a morte do filho, ou a força sexual de sua antagonista, além da desconfiança com a natureza do próprio sistema para o qual trabalha. No entanto, o filme não peca em se mostrar cheio de personalidade ao desenvolver sua trama com segurança, ao criar empatia para com seus personagens (principalmente devido ao talento excepcional de Clive Owen em dar sensibilidade a homens durões) e ao estabelecer a lógica do universo no qual se desenvolve.

Anon é filme de veterano, e isso se faz perceber na facilidade com que o filme demonstra suas opções narrativas. A razão de tela se altera quando estamos vendo a ação em terceira pessoa ou quando estamos assistindo à visão de algum personagem; os grafismos colocados em tela para simular a visão modificada das personagens são didáticos ao se imiscuírem na ação que presenciamos; a fotografia, com uma predileção por espaços abertos, mostra-se sempre opressiva de uma maneira agorafóbica, imprimindo uma grande apreensão em espaços abertos, o que reflete a personalidade de um personagem de uma maneira importante para a história. Em momento algum o filme precisa se esticar em explicações verbais em relação ao funcionamento de seu universo, ou ao desenvolvimento de sua trama, pois o diretor possui sempre um recurso técnico na manga que estabelece essas situações para o público de maneira clara e objetiva, o que permite que o filme simplesmente se desenvolva focado em sua narrativa, sem desperdiçar tempo em sequências excessivamente expositivas.

Mesmo com todas essas qualidades, o destaque vai mesmo para a edição, que, alterando-se em diversos pontos de vista, modificando a razão de tela utilizada, fazendo uso de manipulações gráficas, com uma riqueza de cenas de ação e com presença, inclusive, de momentos de deturpação e alteração de imagens, é uma das mais ricas vista no cinema nos últimos tempos. Se Anon é tecnicamente competente, em termos de edição o filme é efetivamente genial, conseguindo estabelecer um universo complexo e uma trama cheia de reviravoltas em apenas 100 minutos de duração sem confundir o espectador em momento algum nem fazer uso de muletas textuais.

Com uma trama cheia de elementos já conhecidos do público, mas também com alguns diferenciais narrativos interessantes e atuais, Anon é o trabalho de um veterano em um gênero que já teve uma maior repercussão no mercado cinematográfico. Mesmo com uma produção pequena e com algumas limitações, o filme é de uma segurança técnica impressionante e narrativamente eficaz, um noir futurista curioso, atual e bem desenvolvido, muito superior a alguns episódios das recentes temporadas de Black Mirror.

Nota:

Leave a Reply

%d bloggers like this: