Análise – Cara Gente Branca (Segunda Temporada)

Análise – Cara Gente Branca (Segunda Temporada)

22 de May de 2018 1 By Conde
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Após uma bem-sucedida passagem pelo Festival de Sundance, a primeira temporada da série Cara Gente Branca aportou na Netflix em clima de muita polêmica. Uma campanha foi realizada na qual pessoas começaram a cancelar suas assinaturas do serviço de streaming sob o argumento de que a série promovia o racismo reverso, e que possuía preconceitos contra brancos. Independente desses argumentos, a série foi um sucesso, possuindo diversos personagens brancos que recaem em estereótipos (nada diferente do que é usual na representação dos negros historicamente na cultura pop), mas também com personagens brancos bastante bem desenvolvidos. Misturando uma estética pop e ágil, com uma ambientação de comédia de faculdade, mas usando esse arcabouço como plataforma para discutir o racismo, Cara Gente Branca acabou por causar uma impressão majoritária de ser uma série bem resolvida, divertida, cheia de estilo e muito bem escrita. Sem a controvérsia da primeira temporada, a segunda estreou recentemente, mas ainda com a mesma qualidade.

As principais críticas que se fazem à série não se sustentam sob uma análise mais profunda. Em primeiro os detratores criticam a maneira pejorativa com que os personagens brancos são caracterizados. Além de ser uma crítica historicamente frustrada pelos excessos de estereótipos na representação de negros na cultura pop, situação que é satirizada nos hilários programas de TV que a série exibe na televisão da Casa Armstrong-Parker, essa representação nem sequer constitui um revanchismo, já que da mesma forma que existem personagens brancos abjetos na série, existem outros caracterizados de forma bastante sensível e realista, vide a relevância do semi-protagonista Gabe (John Patrick Amedori), que possui episódios focados em si e dá uma ótima representação da percepção do showrunner Justin Siemens e de sua equipe sobre a posição dos brancos em sua história: coadjuvante, porém respeitosa.

A segunda crítica diz respeito ao fato de a série ser focada em negros da elite estudando em uma universidade de classe alta, o que seria um descrédito para discutir questões raciais, já que o racismo é amparado historicamente numa exploração de mão-de-obra e conflitos de classe, como demonstrado no documentário A 13ª Emenda da diretora Ava duVernay, além de outras obras. Essa colocação é combatida no próprio texto da série, que demonstra que, apesar de concordar com a importância da questão trabalhista no debate quanto ao racismo, essa questão se soma à representatividade negra nas elites, assim como o acesso à educação e disponibilidade de ascensão profissional. Dessa forma, a série não se oporia às obras sobre o tema com personagens e estéticas mais socialmente periféricas, e sim é complementar a elas, demonstrando que a questão racial passa por todo um espectro de opressões, sendo a demonstrada aqui apenas mais um pedaço desse espectro.

Dito isso, é interessante destacar que é exatamente das diversas demonstrações e do espectro diferenciado do racismo que Cara Gente Branca retira sua força. Apresentando uma galeria de personagens bastante diversos, que por vezes até se antagonizam, a série consegue exibir diferentes visões e experiências sobre o tema sem perder sua concisão crítica e ressaltando a complexidade na própria gestão do debate acerca desse tipo de opressão. Elegendo protagonistas diferentes a cada episódio e fazendo uso de uma estrutura em mosaico, na qual o arco de cada personagem vai se cruzando com o do outro para formar um todo, a série demonstra a pluralidade da vivência daquelas pessoas e como as questões em debate nunca se apartam das experiências individuais e complexas das pessoas.

Essa estrutura também é muito bem utilizada do ponto de vista estético, já que Cara Gente Branca é uma série, afinal, cheia de estilo. Com edição ágil, trilha sonora que passeia por diversos gêneros da música negra e com uma direção de arte elegante, que explora bem os flashbacks de época, como também o cenário de uma universidade de elite sem perder de vista a necessidade de pontuar a influência (recente) da comunidade negra naquele cenário por meio de suas roupas e visuais, a equipe consegue estabelecer um ótimo apelo estético, principalmente para o público jovem.

O roteiro, embora bastante incisivo, nunca se torna despropositado, nem tropeça em suas próprias intenções, numa demonstração de que a equipe é bastante segura e bem resolvida em relação aos temas que aborda. A pluralidade de pontos de vista reforça a complexidade com que o tema é abordado, sendo em diversos momentos surpreendentes dentro de uma série com uma estética geral tão leve e pop. Os roteiristas e diretores sabem flutuar entre episódios que possuem estilos diferentes: um psicodélico protagonizado por Troy (Brandon P. Bell), outro bastante denso em diálogo-sequência entre Sam (Logan Browning) e Gabe (John Patrick Amedori), outro que remete a um road-movie; sem nunca deixarem de acertar o ponto na composição de um grande quadro.

Indo bastante além das tentativas de descredibilizá-la, Cara Gente Branca é uma série inteligente e consciente dos assuntos que aborda, e apesar de sua estética possuir um forte apelo juvenil, há uma maturidade impressionante na forma como ela compreende os próprios temas. Passeando com segurança entre a maturidade narrativa e o apelo pop, é uma das séries mais interessantes atualmente em exibição, e acertou em cheio, mais uma vez.

Nota: