Análise | Tungstênio

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Bastante conhecido no cenário nacional de quadrinhos, o escritor e ilustrador Marcelo Quintanilha conquistou grande admiração mundial quando Tungstênio, sua estupenda HQ lançada no Brasil pela Editora Veneta, venceu o prêmio de melhor obra policial no Festival d’Angoulême, na França. Trata-se de um dos principais eventos dedicados às histórias gráficas, o bastante para deixar o autor e suas obras sempre visadas, principalmente por pessoas interessadas em trazer o seu talento para a sétima arte. Uma delas foi o cineasta pernambucano Heitor Dhalia, que já presenteou o cinema nacional com bons filmes como O Cheiro do Ralo e Nina, e que agora entrega ao público, poucos dias após o Dia do Cinema Nacional, uma fiel e excelente adaptação de Tungstênio.

Iniciando uma leva de filmes baseados em quadrinhos brasileiros (que trará ainda esse ano O Doutrinador e, no próximo ano, o aguardado Turma da Mônica: Laços), Dhalia usou o mesmo método adotado por Robert Rodriguez em Sin City: A Cidade do Pecado e por Zack Snyder em 300: usar o material gráfico original como storyboard. O diretor não se acanhou ao transpor para as telas os desenhos e enquadramentos criados por Quintanilha da forma mais fiel possível, auxiliado por um eficaz trabalho de edição e uma fotografia crua e realista, ainda que estilosa. Mesmo se tratando de mídias diferentes, onde qualquer mudança visual ou narrativa poderia ser aceitável, a fidelidade da produção é mais que bem vinda.

É no roteiro, porém, que o filme soca o estômago do espectador ao jogar os personagens em situações que discutem temas como preconceito, violência doméstica e urbana, racismo e pobreza, tendo como cenário um lado sombrio e sujo de Salvador. Também escrita por Quintanilha, a trama traz um crime ambiental envolvendo dois pescadores interligada a quatro protagonistas: um rabugento ex-militar (José Dumont, visceralmente ótimo como sempre), um jovem traficante (Wesley Guimarães), um violento policial (Fabricio Oliveira) e sua sofrida esposa (Samira Carvalho). Com seus dramas individuais, terão seus caminhos cruzados. Tudo sob a poderosa narração de Milhem Cortaz, que parece sempre querer ver as coisas pegarem fogo.

Não é só no visual que Tungstênio copia, positivamente, o quadrinho, uma vez que as falas dos personagens permaneceram intactas. A HQ foi elogiada pela naturalidade em seu texto, com as gírias e sotaque de Salvador bastante verossímeis, e no longa não é diferente, se afastando da artificialidade da atual novela da Globo, Segundo Sol, por exemplo. O elenco transborda luxúria, raiva e remorso com perfeição, com destaque para Fabricio Oliveira e Samira Carvalho, que enchem a tela como fúria e paixão na mesma intensidade, em personagens que evidenciam a força e resistência do ser humana nas mais complicadas situações, tal como o metal que dá nome ao título.

Tungstênio, o filme, assim como Tungstênio, a premiada HQ, é um turbilhão de sensações que despertará no público várias emoções. Assim como o recente As Boas Maneiras, dá continuidade a uma leva de filmes nacionais de boa qualidade e ainda poderá chamar a atenção de mais profissionais para os quadrinhos, fonte de grandes histórias. Não perca tempo: leia Tungstênio e veja o filme. Ou faça o oposto. De qualquer forma, você não sairá indiferente.

 

Nota:

 

 

 

 

One thought on “Análise | Tungstênio

  • 22 de June de 2018 at 16:53
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    Super interessante. Indico e concordo.

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