Steve Ditko | a sensibilidade e a sutileza do traço

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          Na introdução de Uma terra sem nome, um tempo sem fim, história do Dr. Estranho publicada na revista Strange Tales, nas edições 130-146 (na década de 1960), e lançada na série de encadernados da Salvat, em 2015, o editor-chefe Fernando Lupoi levantou um ponto importantíssimo, mesmo que de forma sutil: que, para além do roteiro de Stan Lee, que se destacou por trazer, de fato, uma graphic novel completa com o arco de Uma terra sem nome, podíamos vislumbrar a maestria do traço do mestre Steve Ditko, que nos deixou recentemente. Ele nos fala de como o traço dos personagens se torna mais fino quando eles estão no plano astral, e mais grossos quando no mundo real, algo que apenas um olhar mais atento poderia realmente verificar.

Os espectros do Barão Mordo, com traços finos, em contraste com o Dr. Estranho.

Isso, por si só, já seria de uma sensibilidade artística muito forte, mas Ditko era mais. E nem é porque ele era conhecido como um artista que sabia desenhar mãos perfeitas em quadrinhos, não. Ditko era o que era por sua destreza em captar e eternizar características de personagens que cultuamos até hoje com seu traço. O traje vermelho e amarelo do Homem de Ferro, por exemplo, foi criação sua. A inclusão do fator emocional na transformação de Banner em Hulk, também. Tudo isso com uma mistura de traços que se justificavam em espessuras, texturas e poses diversas, algo que até hoje é seguido por ilustradores e desenhistas ao redor do mundo.

            Uma coisa mais empolgante ainda é que Steve Ditko construiu toda essa mitologia ao seu redor em pouco menos de 10 anos. Após ter criado o Homem-Aranha junto com Lee (outro herói emocional, com traços finos e contrastantes entre o Aranha e vilões, como o Duende Verde) e o Dr. Estranho, ele deixou a Marvel e trabalhou com várias outras editoras, criando outros personagens de renome e grande influência, como o Capitão Átomo (cocriado por ele e Joe Gill), que junto ao Questão e o Besouro Azul, que influenciaram nada mais nada menos que o Watchmen, de Moore e Gibbons.

O Besouro Azul

            A partir da década de 1980, entretanto, como muitos já sabem, a fama  de Ditko começou a desaparecer junto com ele, pois ele começou a se isolar cada vez mais do mainstream das HQs. Restou-nos o seu legado: algo denso não só na narrativa visual, como nas questões levantadas emocional e filosoficamente por seus personagens (Ditko era adepto da filosofia do Objetivismo da escritoa Ayn Rand, que diz que a realidade existe independente da consciência – algo muito bom pra quadrinhos, não acham?).

O Homem-Aranha possui, até hoje, um forte apelo filosófico em suas histórias.

            Por muito tempo, o mundo das HQs sentirá a influência de Steve Ditko, sempre que estivemos diante de uma história de forte caráter emocional e filosófico, com uma narrativa visual que combine traços de maneira sutil para criar o efeito desejado. Claro que a arte evolui, mas sempre a partir do que já foi feito, e sempre que se olhar para trás, veremos, em seu lugar de honra, no panteão dos deuses dos quadrinhos, como Kirby, Simon, Kane e o próprio Lee, a figura de Steve, bem ao cantinho, como era de seu costume.

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