Análise | GLOW (Segunda Temporada)

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Ao divulgar GLOW para o público, a estratégia da Netflix foi correlacionar a série diretamente a Orange is The New Black. Ela foi alardeada como sendo “das mesmas produtoras” e até mesmo o padrão dos comerciais era referenciado (no Brasil, a divulgação de OITNB naquele ano havia contado com a participação de Valeska Popozuda, a de GLOW teve participação de Gretchen e de Rita Cadillac). Sendo a série das mulheres encarceradas um dos maiores sucessos comerciais da casa, e estando (realmente) sua criadora, Jenji Kohan, apoiando executivamente a produção da série sobre mulheres na luta livre, a correlação tinha razão de ser. No entanto, as similaridades terminam por aí. Apesar de OITNB ter momentos cômicos e alguma leveza na direção, a série é densa, com episódios longos e situações de grande brutalidade; GLOW, por outro lado, vem trabalhando temporadas de apenas 10 episódios com uma média de 30 minutos cada e nunca leva sua narrativa para pontos mais problemáticos da sociedade. Por mais que esse parâmetro dê a entender que a série “derivada” é inferior a sua “antecessora”, nesse caso é o oposto o que acontece.

Correndo o risco inicial de ser derivativa, GLOW estabelece em poucos episódios sua dinâmica própria, sendo em si uma série bastante peculiar. Apesar de flutuar entre a comédia e o drama, a narrativa é muito mais bem resolvida em não exagerar na mão de forma que comprometa sua leveza, enquanto seu visual retrô e suas referências em edição e fotografia deixam sempre um gosto empolgante para os espectadores. Com uma galeria concisa de personagens, episódios enxutos e temporadas com arcos, em geral, simples, a série diverte sem errar o tom por um capítulo sequer.

Com um elenco que se mostra não apenas competente, mas também confortável, GLOW sabe equilibrar suas personagens. Ainda que Alison Brie seja o principal destaque e a protagonista da trama, a narrativa deixa espaço suficiente para diversos outros talentos brilharem, como as excelentes Betty Gilpin e Kia Stevens, que protagonizam um episódio delicadamente brilhante (A Mãe de Todas as Lutas) nessa segunda temporada, co-escrito pelo veterano John Cameron Mitchell em uma participação bastante especial.

 Enquanto sua “série de referência” vem perdendo impacto ao longo de suas temporadas e se confundindo na abordagem das temáticas que costuma levantar, gerando um resultado irregular e errático, GLOW parece se beneficiar de sua simplicidade para debater temas complexos (rivalidade feminina, abuso moral de gênero no trabalho, preconceito contra a assistência social, abuso sexual e estupro na indústria audiovisual) de maneira equilibrada e sem perder o controle do discurso que deseja projetar.

Leve, mas ainda assim competente em seus quesitos dramáticos e em seus debates e subtextos, GLOW vem a cada temporada se solidificando como uma série bem resolvida narrativamente, esteticamente interessante e dramaticamente eficiente. Um resultado gostoso de assistir, que vai muito além de sua campanha inicial de divulgação como “série derivada”, entregando atualmente capítulos mais consistentes e temporadas mais interessantes que sua “série de referência”.

Nota:

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