Análise | Ilha dos Cachorros

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Roteirista e cineasta competente, o americano Wes Anderson possui uma fama de ícone hipster, algo muito difícil de discordar. Querido por críticos e responsável por obras encantadoras como Os Excêntricos Tenenbaums, Três é Demais e O Grande Hotel Budapeste, filmes que abordam relações sociais e políticas com um delicioso senso de humor, ele ganha agora, em Ilha de Cachorros, a oportunidade de alcançar um público maior. Experiente na técnica stop motion graças ao ótimo O Fantástico Sr. Raposo (2009), Anderson entrega em sua segunda animação (gênero normalmente mais atrativo) uma divertida fábula repleta de temas atuais.

A trama é situada no Japão, num futuro próximo. Devido a uma estranha gripe canina, o corrupto prefeito Kobayashi, decide banir todos os cães de Megasaki para uma uma remota ilha que funciona como depósito de lixo. O primeiro cão a ser enviado é Spot (voz de Liev Schreiber) , justamente o companheiro fiel de Atari Kobayashi (Koyu Rankin), jovem de 12 anos e que vive sob tutela do prefeito. Disposto a resgatar seu melhor amigo, Atari consegue chegar na imensa ilha e, junto com peculiares cachorros, inicia uma cômica e tocante jornada.

O que temos aqui é uma eficiente alegorias a sérias questões que nos habituamos a ver no cotidiano. A opressão, segregação e divisão social imposta pelo governo Trump (e outros, vale destacar), a luta pela democracia e a necessidade de reconhecimento e poder acima das relações humanas são algumas mensagens que facilmente virão à mente do espectador, através dos casuais diálogos imprevisíveis criados por Anderson. Tal feito é auxiliado por um estupendo trabalho técnico, que ajuda nessa imersão peculiar. Graças a 130.000 tomadas, a equipe de animadores faz um minucioso e detalhista trabalho, onde cada detalhe, desde um pelo animal a um olhar lacrimejante de Atari, disputará a atenção do público com roteiro. Ilha dos Cachorros também possui cenas que lembram animes antigos que servem como meio de valorizar a técnica de animação passo a passo, que como eu cheguei a comentar na resenha de O Homem das Cavernas, ainda possui grande charme.

Além de um ótimo trabalho na fotografia e no design de produção que em diversos momentos homenageiam o cinema japonês (ou mundial, vide uma tomada que remete a Cidadão Kane), o longa é agraciado com bela trilha sonora do compositor francês Alexandre Desplat, duas vezes premiado pela academia (por O Grande Hotel Budapeste e, recentemente, pelo estupendo A Forma da Água), envolventemente simples e intimista.

Outro grande mérito na carreira do diretor é a colaboração constante com talentosos atores e atrizes. Assim como Tarantino e Nolan, que costumam escalar o mesmo elenco de obras anteriores, Anderson ganha o reforço de um ótimo elenco casual. Nomes como Edward Norton (hilário), Scarlett Johansson, Bryan Cranston (este já experiente em dublagens, tendo atuado em Batman: Ano Um e no seriado Power Rangers), Jeff Goldblum, Frances Mcdormand (engraçada em todas suas falas), Ken Watanabe, Greta Gerwig, Tilda Swinton, Bill Murray, F. Murray Abraham, Harvey Keitel e, surpreendentemente, Yoko Ono, dão vozes e vida a personagens de fácil empatia, seja humano ou canino.

Ilha dos Cachorros é mais um excelente filme no invejoso currículo de Wes Anderson. A sua premiação como melhor diretor no festival de Berlim e o bom retorno na bilheteria (U$ 63 milhões) só comprovam que a valorização do diretor por público e crítica aconteceu. Em tempos em que diretores megalomaníacos entregam franquias vazias, é gratificante acompanhar um que ainda possa nos entregar uma obra incomum e ainda assim agradavelmente prazerosa. 

Nota:

 

 

 

 

 

One thought on “Análise | Ilha dos Cachorros

  • 19 de July de 2018 at 22:23
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    Parece ser interessante. 🔝

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