Análise | Harry Potter e a Ordem da Fênix

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As adaptações cinematográficas que se baseiam em obras literárias já têm, desde sua gênese, um papel mais difícil do que os demais filmes: além de serem satisfatórias nas telas, precisam entregar fidelidade e semelhança com as páginas dos livros dos quais suas histórias foram retiradas. Tendo como base essa premissa, “Harry Potter e a Ordem da Fênix” sempre foi um dos maiores desafios do universo mágico no cinema. Não é uma tarefa fácil retratar em poucas horas uma história com 704 páginas, inúmeras nuances, um peso incomparável e o destrinchar de tramas secundárias extremamente importantes.

A franquia já vinha, no terceiro e quarto filme, se afastando dos tons mais vivos e alegres, do lúdico juvenil e da pura inocência que permeavam Pedra Filosofal e Câmara Secreta. No entanto, talvez a mais drástica transição da série seja através de A Ordem da Fênix, dirigida por David Yates, que se inicia logo após o escabroso retorno de Lord Voldemort, corpóreo e poderoso, do embate quase fatal com Harry e da horrível morte de Cedrico Diggory. O mundo bruxo se encontra enevoado por luto, medo, uma desesperada descrença (mais suportável do que encarar a verdade), ameaças e polarizações. Os que se recusavam a acreditar na volta de Lord Voldemort reduziram Dumbledore e Harry (o único que viu o bruxo das trevas diante de seus olhos) ao ridículo, e desprezavam os que criavam nos “boatos”.

No começo do quinto filme, no entanto, Harry está totalmente distanciado das críticas dos tablóides, da opinião pública e do descrédito da população bruxa. Isso porque, na verdade, está isolado de todo o mundo. Recebera expressas ordens e recomendações para não sair da casa dos Dursley e, desde então, não lhe foram entregues cartas dos amigos detalhando o que estava acontecendo, não mantivera contato com Dumbledore e permanecia afastado de todo o universo bruxo, enquanto os demais estavam na casa de Sirius. Os pensamentos negativos que acometeriam qualquer pessoa – ainda mais um adolescente que já passou por muita coisa na vida, viu um amigo morrer e quase foi morto pelo assassino de seus pais – atingem Harry como um soco.

Nos momentos seguintes, vemos uma importante transição do Harry que se mantinha feliz, inocente e otimista mesmo com todas as mazelas que afetavam sua vida para um Harry abatido pelo peso de tudo o que sempre lhe feriu – a morte dos pais, a fama indesejada, o descrédito das pessoas, a incapacidade dos outros de enxergar sua própria dor, a solidão, a ausência de um núcleo familiar. Essa faceta pessimista, ferida e deprimida é extremamente importante para fazer com que Harry se veja consciente de tudo o que enfrentou, processe as coisas negativas e passe a enxergar a si mesmo de forma mais madura e congruente. Com isso, foi capaz de encarar melhor seus amigos, as coisas boas que o rodeavam mesmo em meio ao caos e a família que a vida lhe arranjara.

Alguns elementos que merecem destaque no filme, por ajudarem a criar uma atmosfera tensa e angustiante, são a fotografia e as cores, mais sombrias e escuras, o comportamento de Dumbledore perante Harry, lhe ignorando durante toda a narrativa e deixando-o sufocado, os pesadelos constantes, cortantes e aflitivos e Umbridge, uma vilã que causa mais desprezo, ódio e ojeriza, do que o próprio Voldemort.

Umbridge é a personificação da vilã má, irredutível, sádica e dissimulada. Submete Harry e os demais alunos a uma cega doutrinação que os afasta da realidade, de forma condescendente e passivo-agressiva. Seus castigos são cruéis e têm como vítimas crianças e adolescentes que não cometeram delitos congruentes com a intensidade da punição. É a demonstração do conservadorismo, da tentativa de manter uma ordem superficial apenas por aparência enquanto tudo está um caos e rechaça o diferente (lembra alguém da realidade?).

É necessário ressaltar, ainda, a Armada de Dumbledore, que surge do almejo dos estudantes de aprender sobre as artes das trevas de forma prática. A ideia vem de Hermione (o que não deixa de ser surpreendente) e as lições são ensinadas por Harry. As cenas passadas na Sala Precisa, onde as aulas eram concretizadas, serviram para mostrar o estreitamento dos relacionamentos, a intensificação da personalidade dos personagens, a relação de Harry com Cho, o crescimento de Gina e o início da resiliência de Neville.

Luna Lovegood também é outro elemento importantíssimo da história que fora introduzido em Ordem da Fênix. Conforme o post já publicado aqui na MaxCon sobre a personagem, Luna é um sopro de compreensão e um poço de ensinamentos, na medida em que desmistifica o estranho e quebra as barreiras do que se entende por normal.

Talvez um detalhe que é muito mais forte nos livros e é parcamente contado no filme (mas deem um crédito pelo pouco tempo que eles tinham para a adaptação) é a história dos Marotos e o passado de Snape. É nas aulas de Oclumência que Harry vasculha, sem querer, a mente do professor de poções e revive as peripécias dos marotos, a importância de Lily em sua vida e o bullying que sofria de James. Isso causa na já superlotada mente de Harry ainda mais questionamentos, angústias e incertezas.

Chegamos, por fim, ao clímax, quando Harry se direciona ao Ministério da Magia com Rony, Hermione, Neville, Luna e Gina, impelido pelos sonhos e jogos mentais de Voldemort. O Ministério é palco da intensa Batalha do Departamento de Mistérios, protagonizada por Harry e seus amigos, os comensais da morte e a Ordem da Fênix. Enquanto há, ao mesmo tempo, a grande beleza de ver Harry amparado na luta contra o mal por seus amigos, a comovente cena em que Dumbledore finalmente olha em seus olhos e luta junto com ele para que Voldemort não se apodere de sua mente e a reação do bem às forças do mal, há, também, a triste e insuperável morte de Sirius Black por sua parente, Bellatrix Lestrange.

Ordem da fênix é um a obra que narra a legitimação dos sentimentos, a dolorosa, mas necessária etapa em que se lida com a dor, a presença importantíssima de pessoas queridas em nossa vida e a prevalência do amor diante das investidas do mal (que sempre foram presentes nos demais filmes, mas é ainda mais intensa na narrativa da superação). É, ainda, responsável por visitar o passado, retirar tabu do bem e do mal como polarização que não permite nuances e a possibilidade de autoquestionamento, enxergando as qualidades e defeitos que não lhe fazem vilão ou mocinho, mas sim ser humano.

 

Nota: 

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