Análise | Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008)

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“Você me completa.”

Tenho duas marcantes lembranças a respeito da primeira vez que contemplei Batman: O Cavaleiro das Trevas, filme de 2008 dirigido pelo prestigiado cineasta Christopher Nolan. A primeira é o fato de meus amigos e eu passarmos oito horas num shopping à espera de uma sessão disponível, uma vez que quase todas encontravam-se lotadas (ainda lembro do meu altíssimo hype). A segunda: a intrigante sensação que tive ao fim da sessão, como se eu soubesse que tinha presenciado um dos melhores longas baseados em HQs; uma obra corajosa, séria, sombria e que mudaria todos os conceitos relacionados a filmes de super-heróis e blockbusters. E hoje, dez anos depois, a continuação do ótimo Batman Begins (2005) segue provando que eu não estava errado.

Os paradigmas impostos a filmes de heróis não são aplicados aqui. Nada de mocinha frágil e indefesa, vilão contando todo seu plano para o herói amarrado numa cadeira e muito menos um tom atenuado para agradar um público juvenil e vender brinquedos. Batman: O Cavaleiro das Trevas é uma amálgama de vários clássicos do cinema. A ação policial e química entre o protagonista e o vilão de Fogo contra Fogo, de Michael Mann; toda a tensão e luta da polícia contra a corrupção no próprio departamento, captando todo o tom pessimista e solitário de Serpico, de Sidney Lumet; a necessidade de aflorar a loucura e sordidez humana de Seven: Os Sete Crimes Capitais; uma subtrama envolvendo mafiosos perigosos que não faz feio diante de obras como Os Bons Companheiros e Donnie Brasco. Retirando todo os uniformes, bugigangas e roupas coloridas, o que temos é uma grandiosa obra adulta. O grande trunfo da produção foi a total liberdade criativa cedida a Nolan, que também escreveu o roteiro com o apoio de seu irmão Jonathan e do experiente escritor de filmes de super-heróis, David Goyer. O grande desafio em filmes desse gênero é que heróis já possuem imensa bagagem graças aos quadrinhos, fora a obrigação em arrecadar rios de dinheiro. Mas a Warner sabia que, após inúmeras produções medíocres como Batman e Robin, Quarteto Fantástico, Hulk, Demolidor e Homem-Aranha 3 acomodarem o público, precisava dar espaço para que sua talentosa equipe pudesse ampliar o eficiente trabalho em Batman Begins.

Ao usar as clássicas HQs O Longo Dias das Bruxas e Vitória Sombria, como referência para destrinchar a máfia em Gotham e a amizade entre Batman, Gordon e Harvey Dent, e A Piada Mortal, para explorar, mesmo que levemente, a personalidade e origem do sádico Coringa, e escalar um elenco dedicado, Nolan sabia que iria acrescentar ou mudar radicalmente a mitologia do Batman nos cinemas.

O cineasta é considerado um dos melhores condutores de atores da atualidade e o que ele consegue extrair do seu elenco é louvável. Os veteranos Michael Caine e Morgan Freeman estão afinados, como sempre, servindo como base moral para o protagonista. Substituindo a insossa Katie Holmes, Maggie Gyllenhaal faz um ótimo trabalho com sua Rachel Dawes, uma mulher forte e corajosa, uma heroína sem capa e máscara. O James Gordon de Gary Oldman, devidamente trabalhado no longa anterior, ganha uma tocante humanidade e solidão em seu trabalho e vida familiar.

Mas nesse parágrafo preciso destacar a alma do filme, a trindade. O preto, o branco e o cinza, respectivamente. Heath Ledger já havia ganhado a simpatia de todos em sua soberba atuação em O Segredo de Brokeback Mountain, mas conseguiu despertar a ira de muitos ao ser escolhido para interpretar o mais icônico antagonista do Morcegão. Mas talento e dedicação o ator tinha de sobra e sua preparação para compor o personagem, com ecos de Sid Vicious e Alex DeLarge, entregou uma das maiores atuações vilanescas da história do cinema e ganhou reconhecimento em inúmeras premiações. A abordagem dada a seu Coringa foi mais do que precisa, se afastando do tom cômico de Jack Nicholson e nos trazendo um assustadora imprevisibilidade e uma anarquia pulsante. Pouco e injustamente lembrado, o trágico Harvey Dent de Aaron Eckhart representa toda a bondade humana corrompida pelo cansaço e vencida pela sujeira e sordidez do sistema. Tanto sua atuação como a de Ledger são auxiliadas por um excelente trabalho de maquiagem (e efeitos visuais). Já tendo convencido a muitos de que era realmente Bruce Wayne/Batman, Christian Bale conseguiu fazer com que o público acreditasse e se envolvesse no seu dilema moral, em suas perdas e sacrifícios. Sem dúvidas, a mais humana interpretação de um super-herói nas telonas.

O filme envelheceu muito bem, graças ao primoroso trabalho técnico e visual. Nolan possui o perfeccionismo de Kubrick e Fincher, o que se estende a todos os setores da produção. A sombria fotografia de Wally Pfister, usual colaborador de Nolan; a trilha sonora poderosa, envolvente e manipuladora de emoções de Hans Zimmer e James Newton Howard (que dupla); o perfeito uso de efeitos digitais casados com efeitos práticos. Tudo isso resulta num espetáculo para nossos olhos, ajudado ,pela então nova no mercado, tecnologia Imax.

Após Batman: O Cavaleiro das Trevas, houve um notável esforço de produções posteriores para alcançar o mesmo patamar. A qualidade dos filmes melhorou bastantes, como Guardiões da Galáxia, Capitão América: O Soldado Invernal e Pantera Negra puderam provar, ainda que grandes estúdios preferissem o conforto preguiçoso e ambicioso em filmes como Liga da Justiça e Batman vs Superman. Mas nenhum teve ou, pelo andar das coisas atualmente, terá a coragem de Nolan e de todos os envolvidos na produção de 2008, aquela vontade em entregar não uma obra comercialmente esquecível, e sim uma obra-prima cinematográfica.

 

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