Análise | As Duas Faces de Um Crime (1996)

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Lançado em 1996, As Duas Faces de Um Crime se consagrou como um dos maiores sucessos do gênero suspense de tribunal da década, com uma trama novelesca, mas instigante, personagens bem desenvolvidos e ritmo eficiente, embora não traga nada de novo ao gênero. Na trama, o advogado criminalista e ex-promotor Martin Vail (Richard Gere) faz fama ao empreender uma verdadeira batalha pessoal contra a promotoria na qual trabalhou, a qual considera corrupta, e diretamente a seu procurador geral, o inescrupuloso Shaugnessy (John Mahoney). Quando Vail assume a defesa de um coroinha, Aaron Stampler (Edward Norton), acusado de assassinar brutalmente um padre que possuía envolvimento com diversos negócios no mercado imobiliário da cidade de Chicago, uma ex-colega e amante de Vail é escalada para atuar no caso como promotora, Janet Venable (Laura Linney). Enquanto o protagonista enfrente essa batalha no tribunal da Juíza Shoat (Alfre Woodard), ele procura entender o que realmente aconteceu com o padre e com o misterioso coroinha, com a ajuda do ex-policial Tommy Goodman (Andre Braugher), da assistente Naomi Chance (Maura Tierney), e da psiquiatra Molly (Frances McDormand). Verdades, mentiras e diversas linhas narrativas são entrelaçadas nesse polêmico julgamento.

O filme apresenta uma direção pouco inovadora por parte de Gregory Hoblit, sem nenhuma cena esteticamente destacável, com uso de cortes comuns e pouco inventivos e de uma trilha sonora banal utilizada de modo um tanto simplório, nunca se igualando a outros clássicos do suspense da década de 1990 como Se7en – Os Sete Crimes Capitais ou O Silêncio dos Inocentes em termos estéticos. Ainda assim se trata de um super sucesso que atingiu o status de clássico devido a seu roteiro muito bem desenvolvido, que aproveita o melhor do gênero policial novelesco com reviravoltas interessantes (e uma determinada cena ainda hoje gera um grande impacto no espectador, sendo uma das reviravoltas mais marcantes do cinema, além de comprovar a genialidade da performance do então estreante Edward Norton), além de ancorar sua trama na atuação de um elenco em que cada ator parece ter sido escolhido a perfeição para seu papel.

Richard Gere entrega um dos melhores momentos de sua carreira com esse personagem que é ao mesmo tempo um homem egocêntrico, um herói em busca da verdade e da justiça, e uma pessoa basicamente inocente e boa, que deseja acreditar no melhor da humanidade, sendo um âncora impecável para o filme. Andre Braugher, por sua vez, faz o contraponto de Martin Vail, sendo não apenas seu parceiro e uma pessoa tão heroica quanto ele, mas trazendo uma visão mais cínica e questionadora diante das situações, uma dinâmica explosiva. Enquanto Laura Linney acerta o ponto, fazendo do interesse romântico do protagonista uma mulher que consegue antagonizar com ele com inteligência e mérito sem nunca chegar próximo de parecer uma megera, Frances McDormand faz de sua personagem o elo mais humano e compreensivo da equipe de mocinhos. Embora todos esses sejam destaques, a atuação mais marcante e que realmente sobreviveu ao tempo na memória coletiva é a complexidade absurda da composição realizada por Edward Norton, que bastou um filme para ser considerado em Hollywood como uma grande estrela. Seu Aaron Stampler, a princípio apresentado como um coroinha ingênuo, perturbado por problemas mentais e com um histórico de abuso, parece crescer em complexidade a cada vez que entra em cena, e não cansa de surpreender até os minutos finais do filme. A dinâmica entre o herói complexo e bem construído de Gere e o flutuante e multidimensional personagem de Norton é sempre bastante curiosa. Outro ponto destacável é exatamente o fato de que essas atuações não são competentes apenas em nível individual, diversas são as interações de destaque no filme, como a de Gere com Linney, a de Norton com McDormand, ou a de Gere com Mahoney.

As Duas Faces de um Crime é um caso clássico de filme de gênero, um suspense policial/ de tribunal, com uma trama novelesca cheia de reviravoltas e personagens arquetípicos. Embora não traga novidades narrativas, nem grandes destaques em termos técnicos, venceu as audiências com um roteiro criativo e um elenco e ritmo muito bem conduzidos e se tornou não apenas um grande sucesso em sua época, mas um verdadeiro clássico em seu gênero.

Nota:

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