Análise | Market Garden

Análise | Market Garden

5 de May de 2019 0 By Vandeson N.
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A nostalgia é um tema que vem ganhando bastante espaço em obras que estão caindo nas graças do público. Basta notar o sucesso de Stranger Things, It: A Coisa e até o curta Kung Fury (que ganhará uma sequência em breve), materiais carregados de referências e lembranças de uma época saudosa e bacana, em que alugar fitas de VHS, assoprar cartuchos de videogames ou esperar os finais de semana para acessar a internet livremente fossem coisas rotineiras de crianças e adolescentes das décadas de 80 e 90. É o exato sentimento que um leitor que viveu momentos onde as coisas eram mais valorizadas que nos dias atuais sentirá quando conferir Market Garden, de Bruno Seelig.

Trata-se de um ótimo quadrinho lançado pela Editora Mino na CCXP 2017, mas que teve sua história iniciada na edição do evento de 2016. De forma independente, Seelig publicou Blitzkrieg, uma divertida e tocante história curtinha que capturou o espírito adolescente do início dos anos 90. Com ecos de clássicos como Te Pego lá Fora (1987) e Conta Comigo (1986), a trama apresenta Bernardo, Marcos, Daniel e Douglas, amigos inseparáveis cansados de sofrer nas mãos do valentão repetente da escola, Anderson. Daniel então sugere que o grupo adote um ataque relâmpago contra o inimigo, usando táticas de guerra. Mas toda a coragem para enfrentar Anderson não os preparou para um inusitado evento que mudará a amizade dos quatro jovens.

Esgotando-se rapidamente, o quadrinho foi bastante elogiado, a ponto de concorrer na categoria de Melhor Publicação Independente de Autor no 29° Troféu HQMix e garantir um lugar entre as 12 melhores HQs de 2016 segundo a Superinteressante. Com esse merecido reconhecimento, Seelig ganhou, através da Mino, a oportunidade de nos contar o que aconteceu com o grupo de protagonistas de seu trabalho anterior em Market Garden, que mantém o nível de qualidade. Aqui, as referências a Curtindo a Vida Adoidado e até Coração Valente (a trama se passa em 1995) se fazem presentes, numa história repleta de questionamentos sobre juventude e tempo desperdiçados, carreiras e amores juvenis. Tudo sem perder o bom humor. Agora com seus 15 anos, o quarteto se encontra num dilema: como conseguir ir numa festa se não possem um carro e ainda por cima na noite anterior a prova do vestibular.

Com belos desenhos cartunescos, que fazem seus personagens e suas características cativantes (como o sisudo e cômico Douglas) e com uma narrativa fluida, Seelig resgata boas lembranças daquela fase saudosa. Jogar Super Nintendo depois da aula, comprar cerveja escondido e possuir um penteado enorme são apenas alguns exemplos que o autor resgata, além de entregar um design que grita os anos 90. Mas é o seu roteiro que eleva a obra. Embora descompromissadamente engraçado, Market Garden possui certa melancolia nostálgica, com um final que lembra o tom de rebeldia, união e despedida de O Clube dos Cinco ou num certeiro diálogo entre Daniel e Anderson que representa as incertezas e pressões impostas a todos adolescentes.

Market Garden possui em belíssimo e discreto acabamento da Mino e conta apenas com alguns esboços dos personagens. Mas o grande acerto da edição foi a inclusão de Blitzkrieg, o que deixa a leitura completa. Com personagens e dramas identificáveis, é um eficiente e divertido trabalho que, independente da época em que o leitor viveu, alcançará boas e velhas lembranças.