Análise | O Estranho (1946)

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Se a vivência da Segunda Guerra Mundial inspirou o imaginário de Hollywood, gerando obras como Casablanca (1942), o pós-guerra foi também uma experiência que mexia com a imaginação do público, o que é visto em filmes como Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946), ou nesse O Estranho, dirigido por Orson Welles e lançado também em 1946. O filme é um noir que se utiliza fortemente da paranoia americana com os nazistas que fugiram e se infiltraram em território americano. Na trama, o investigador Sr. Wilson (Edward G. Robinson) segue a trilha de um grande oficial nazista até a pequena cidade de Harper, lá chegando ele logo suspeita do Prof. Rakin (Orson Welles) que está se casando com a filha de uma família proeminente, a inocente Mary (Loretta Young). A partir deste momento a investigação de Wilson se transforma em um jogo no qual ele tenta enquadrar seu oponente, enquanto este tenta despistá-lo.

A direção de Welles, como sempre, é caprichada em termos visuais: diversas fotografias são muito marcantes, a movimentação de câmera e os cortes são bastante elegantes, e o uso da iluminação em contraste escuro, marca registrada do cinema noir é utilizada à perfeição. Essa qualidade visual do diretor é particularmente destacável na sequência clímax do filme, que é bastante vibrante e ainda eficiente décadas após sua produção. No entanto, se a construção visual do autor é destacável, a qualidade técnica da captação de som é seu calcanhar de Aquiles, tendo discrepâncias excessivas de volume entre a trilha sonora e as vozes, além de variação de qualidade entre cenas, descuido esse que perseguiria o diretor ainda muitos anos após esse filme.

Outro destaque positivo fica por parte do elenco. Enquanto Robinson entrega com facilidade seu personagem, já que preenche um arquétipo corriqueiro na carreira do ator, e Young acerta o tom de sua caracterização, o destaque fica mais uma vez para Welles, que faz de seu vilão uma figura sempre interessante, apesar de unidimensional, com uma personificação rica e particularmente empolgante nos minutos finais.

O defeito que torna O Estranho realmente um filme menor na carreira de Welles é definitivamente seu roteiro. Apesar de ágil e bem resolvido, e de aproveitar a contento os modismos das tramas policiais da época e a atmosfera do pós-guerra, a narrativa é muito simplória, com mocinhos e vilões excessivamente definidos, personagens muito arquetípicos e um desenvolvimento com causas e efeitos muito rígidas. Essa situação acaba transparecendo diretamente no roteiro que soa sempre auto-expositivo, no qual tudo que precisa ser compreendido no filme é estabelecido de maneira grosseira e muito literal. Em uma determinada sequência o vilão chega a escrever em um papel um cronograma de um plano que já foi explicado pela trama apenas pra reforçar a explicação visual do que está ocorrendo, de modo pouco verossímil e subentendendo que o espectador poderia não estar conseguindo acompanhar a trama, o que é errôneo, já que a história em si não é muito complexa.

Com boas atuações, produção eficiente, fotografia primorosa e um bom ritmo, O Estranho é um filme cuja graça sobreviveu ao tempo, mesmo que seja uma obra falha em seu roteiro e um filme menor na carreira de seu criador. Uma incursão do grande ator e diretor Orson Welles pelo gênero noir que demonstra competência, zeitgeist, mas que não tem a potência de um Cidadão Kane, de um A Marca da Maldade.

 

Nota:

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