Análise | O Selvagem da Motocicleta(1983)

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O início da década de 80 foi um tempo peculiar para os diretores da Nova Hollywood. Essa geração, que fez enorme sucesso de público e crítica a partir do lançamento de Bonnie & Clyde (1967) por Arthur Penn, e que foi composta por nomes como Martin Scorsese, Peter Bogdanovich e William Friedkin, renovou o cinema americano incorporando técnicas vindas da nouvelle vague francesa, como também de diversos cinemas novos europeus. No centro de seus interesses temáticos estava a romantização da juventude marginal, vista como símbolo da liberação contra o stablishment conservador. Esse tema estava presente em vários filmes como Sexy e Marginal (Scorsese, 1972), Lua de Papel (Bogdanovich, 1973) ou Sem Destino (Hopper, 1969). Ao final da década de 70, o sucesso dessa vertente em Hollywood começou a decair e diversos entre esses diretores começaram a ser encarados publicamente como pedantes, pretensiosos, além de imorais e chatos. No contexto dessa “contra-reforma” foi que Francis Ford Copolla, após um grande choque de imagem causado pela recepção ambígua a seu megalomaníaco Apocalypse Now (1979), lançou O Selvagem da Motocicleta em 1983.

A narrativa acompanha o jovem Rusty James (Matt Dillon), irmão mais novo do lendário líder de gangue “Motoqueiro” (Mickey Rourke), desaparecido há algum tempo. Rusty vive sozinho com o seu pai alcoólatra (Dennis Hopper), e passa os dias tentando se tornar uma versão jovem do irmão, procurando brigas e tentando refundar o auge das gangues na cidade interiorana onde vive. O protagonista divide seu tempo entre o hobby como arrumador de confusão e a jovem por quem é apaixonado, Patty (Diane Lane). Quando seu irmão retorna à cidade, o “Motoqueiro” está diferente: assumindo um comportamento sempre calmo, ele começa a questionar as expectativas de vida e de futuro de Rusty, conduzindo o herói a uma reflexão existencial.

Claramente referenciando filmes antigos como O Selvagem (Benedek, 1953) e Juventude Transviada (Nicholas Ray, 1955), o filme estabelece sua ambientação e referências já nos primeiros minutos de filme. A partir de então, Copolla conduz o filme misturando opções de direção que remetem simultaneamente ao cinema clássico, mas também aos cinemas novos e vertentes experimentais. Estabelecendo um tom onírico por meio do uso da deslumbrante fotografia em preto e branco, que é cortada apenas pelo colorido dos peixes que são o nome original da obra (Rumble Fish), como também pelo uso do gelo seco nos cenários e da riquíssima edição de som, o diretor mergulha fortemente no simbolismo de sua narrativa, demonstrando esteticamente que aquela história é menos relevante como narrativa, e mais como divagação artística. Ao longo de uma hora e meia, o diretor se apresenta primoroso no uso do som, das cores e da edição para representar as percepções diferenciadas de mundo dos personagens.

Se O Selvagem da Motocicleta é um colosso em termos estéticos, o mesmo não pode ser dito da intensidade emocional do filme. A beleza da direção muitas vezes parece apenas uma distração diante do fato de que o roteiro, embora inventivo em sua metáfora, é enfadonho como narrativa, e que seus personagens unidimensionais carecem de carisma. A caracterização dos atores, apesar de funcionar para a analogia construída, fornece ao espectador poucos elementos de vinculação afetiva para que o filme conquiste a audiência. Copolla constrói aqui uma obra simbólica que funciona perfeitamente como ressaca do deslumbre marginal das décadas anteriores, retirando o verniz encantador da juventude revoltada, e mostrando apenas falta de perspectiva e de sentido na vida. É curioso ver a maneira como o roteiro se refere ao imaginário do estado da Califórnia, visto pelos americanos do interior como o local das praias e da vida moderna e livre, o “Motoqueiro” se refere a ela dizendo que “Queria chegar ao mar, mas a Califórnia entrou em seu caminho”, revertendo expectativas e demonstrando a vaidade californiana e como  a cultura da região é, também, aprisionadora, o que provavelmente refletiu os próprios sentimentos daquela geração de diretores que viviam então em Hollywood. No entanto, essa força reflexiva e metafórica não consegue se transformar em emoção ao longo do filme, que funciona melhor no nível intelectual e interpretativo.

Provando seu imenso repertório de referências cinematográficas, de conhecimento técnico e sua inventividade narrativa, Copolla fez de O Selvagem da Motocicleta um filme interessante e belo em todas as sequências apresentadas. A obra funciona como uma arte simbolista que busca uma reflexão sobre o direcionamento de sua geração num momento bastante peculiar para aquele grupo de realizadores, como também para a sociedade americana. Funcionando à perfeição em termos intelectuais, reflexivos e técnicos, o filme pode decepcionar o espectador que procure um apelo mais emotivo, já que seus personagens nunca vão além da dimensão simbólica e arquetípica para transformarem-se em seres humanos complexos com os quais o espectador consiga empatizar. O Selvagem da Motocicleta acaba por ter um apelo ambíguo, funcionando ou não, dependendo de o que o espectador espera ao assistir a um filme.

Nota:

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