Análise | Insatiable

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Quando o boicote ao trailer de Insatiable, produção Netflix que estreou na última sexta, acusava a série de promover a gordofobia, seus produtores e elenco disseram que os julgamentos estavam precipitados, que se deveria assistir à série antes e, só depois, exprimir um julgamento mais apropriado à real mensagem da série. De fato, as pessoas que julgaram o trailer estavam muito equivocadas, pois viram apenas um elemento ultrajante de uma mensagem que é muito, mas muito mais problemática, para dizer o mínimo.

Começando pelo mote que motiva (ou deveria, pois o roteiro é tão confuso que isso se perde na evolução dos eventos, mas chegaremos lá) todo o plot. A adolescente Patty Bladel (Debby Ryan), que sofre bullying e humilhações por ser gorda, sentindo-se uma perdedora, que por isso continua comendo, passa por um acontecimento que a torna magra e dona de uma vontade se vingar daqueles que a humilharam. Ela encontra o advogado e coach de misses (o que?) Bob Armstrong (Dallas Roberts), que decide ajudar Patty a ser a vencedora que ela quer ser ganhando concursos de misses e, quem sabe, o Miss America.

Perdedora x vencedora – essa é, de fato, a mensagem passada pela série.

A série reclamava de ser taxada de gordofóbica, mas quando assistimos aos primeiros minutos, vemos que… ei, é isso mesmo! Mas não é só isso, a série passará, a todo momento, a mensagem que “magreza é mágica!” (essa é realmente uma das frases-conceitos do show). Patty, sempre que se sente uma fracassada nessa nova fase magra, acha que ainda é a gorda interior que não saiu dela. Bob é um ex-gordo cuja vida melhorou quando se tornou magro. Sério? Muito, e não é só isso. Temos muitas coisas que são problemáticas nessa série, mas temos que ir por partes.

A primeira delas é que o senso de humor da série é algo que é difícil de entender. Já no episódio-piloto temos piadas com pedofilia que se pretendem ser hilárias (e nem é por que pedofilia não é mais engraçado, mas por que a piada é ruim mesmo, mal executada, piegas, clichê etc.), o que se torna recorrente nos primeiros episódios. Mais, a série faz bastante alarde ao abuso masculino, mas torna virilidade a mesma situação, em que um adolescente tem relações com uma mulher mais velha. E isso evolui ainda para a pior.

O humor chato esconde temas controversos, como o estupro estatutário.

Bob Armstrong, um homem com o clássico estereótipo gay enrustido, mas que as mulheres caem a seus pés, desperta um crush em Patty, que decide destruir seu casamento para tê-lo para si. Sério? A vingança, maior meta da protagonista gira em torno de um homem? Mesmo não sendo mulher ou gay, isso me ofende pelo clichê ultrapassado que já se tornou há muito tempo. E o tratamento às mulheres não para por aí. Temos donas de casa que não trabalham e vivem por seus lares, uma médica de sucesso que é emocionalmente inacessível, adolescentes cujo maior desejo é serem lindas e desejadas, uma mentora que nunca conseguiu superar um fora de Bob e quer, depois de 20 anos, se vingar dele por tê-la deixado. Sem falar que os dois amores de Patty na escola são magros, atléticos, um o perfeito badboy, o outro, o garoto bonito e bonzinho, genéricos. Patty não hesita em sempre procurar Bob, ou o badboy, ou o bonzinho, para resolver seus problemas. E paremos por aqui, por que o parágrafo está ficando muito longo.

Além do estereótipo gay, o da mulher salva da pobreza pelo príncipe encantado.

Tem mais? Tem.

Temos piadas com asiáticos com dentes de vampiro, por que é assim que é na Ásia, temos uma leve menção à Ku Klux Klan. O movimento LGBTQ é tratado como pilhéria, a situação de uma mulher trans em relação ao seu corpo é subjugada em detrimento à relação com o corpo que “não é magro o suficiente”. Aliás, a descoberta de uma menina sobre sua sexualidade é tratada com sendo hilária, por que não tem nada mais engraçado que uma menina gay em negação, não é mesmo?

Pode ser que eu esteja sendo chato, politicamente correto demais, você pode pensar, mas não. Esses temas já foram abordados com humor por outras produções, como Dietland, mas você vê realmente a mensagem e o humor realmente ácido sobre o problema que realmente importa. Com Insatiable, é só chato, é pilhéria pela pilhéria, é realmente passar a mensagem que as pessoas que não atendem aos critérios de beleza ou orientação sexual, ou são de outro país, são todas perdedoras. Uma das personagens até mesmo abandona sua família e seu passado como filha do jardineiro, rejeitando sua irmã (pobre e, por isso, cheia de filhos, obcecada por homens), e é tão mal executado, que não provoca nem raiva, mas bocejos. Piada sobre câncer. Falei sobre gordofobia? Pois uma piada que mostra que uma personagem possa ter “comido” sua irmã gêmea no ventre, indicando como ela já era obsessiva com comida, e por isso, doente, não é engraçado. É uma tentativa de humor ruim. Simplesmente isso.

Outro dos momentos de humor chato e superficial da série.

E chegamos à última parte para falar sobre essa série, que é o seu roteiro. A despeito de uma premissa fraca e de parecer não entender a utilidade do voiceover, de uma motivação de personagem rasa e de uma montagem e edição simplórias, pra não falar da trilha genérica, o roteiro se perde em tantas ideias, em tanta “reviravoltas” que dão em lugar nenhum, que o próprio título da série não se justifica. Como uma pessoa pode ser insaciável sobre suas indecisões? A personagem não sabe o que realmente deseja. Não é que ela queira tudo, ela se perde em incertezas sobre beleza, sobre o cara certo, sobre ser gorda (feia, fracassada) ou magra (bela, bem-sucedida), sobre ser egoísta ou desprendida, sobre ser má ou boa, sobre se está possuída pelo demônio da gordice (é sério) ou se tudo que está dentro dela são suas próprias decisões. E isso não se resolve, não chega a lugar nenhum, os personagens não se revolvem, numa tentativa forçada de uma segunda temporada, que se confirmada, promete mais confusão, mais lugar nenhum. Os únicos arcos que mereceriam um bom destaque, o da melhor amiga de Patty, Nonne (Kimmy Shields), e o do próprio Bob Armstrong, são muito superficiais, e aparecem tarde demais para salvar a bagunça geral que é a série criada por Lauren Gussis.

Um dos únicos arcos que poderiam ser legais, é raso e superficial.

Resumindo, essa é uma série desastrosa pela sua premissa, que já não é uma demanda dos próprios espectadores, pela execução que beira o ridículo, pelo humor, que não existe, pelo roteiro, que abre e não conclui. A única insaciabilidade que provoca é a de achar algo melhor para tirar o gosto ruim da garganta.

Nota: 

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