Análise | Elric – O Trono de Rubi

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Elric de Melniboné nasceu na literatura na Inglaterra dos anos 60, mais precisamente em 1961 na revista Fantasy Science n.47. Eram os anos pós-guerra, os Estados Unidos se erguiam como a maior potência mundial e o império britânico passava o bastão. Esse sentimento está impresso na obra de Michael Moorcock. Em sua saga de capa e espada (termo cunhado pelo próprio) é o reino de Melniboné que está às mínguas. O rei Elric, um doente de pele pálida e sangue fraco, necessitado de poções e sacrifícios para se manter vivo, espelha essa derrocada.

Julien Blondel e Jean-Luc Cano trazem essa bela adaptação para as HQs, lançada na França pela Glénat, mantendo o espírito da obra original e trazendo novos elementos que extrapolam as ideias originais de Moorcock. Na trama, o primo do rei, Yyrkoon, almeja o trono para si, mas não só isso. O príncipe deseja, ainda, a mão da rainha Cymoril – sua irmã, diga-se de passagem – e o mais importante, a volta ao passado glorioso do Império Melniboneano. Para ele, Elric é um fraco e precisa sair de cena. Seu desejo por conquista e glória o leva a trair o primo, entregando informações para que invasores possam acessar o interior da capital Immryr, o que leva os melniboneanos, liderados por seu soberano, à batalha mais uma vez. E em meio à batalha Yyrkoon deixa Elric para morrer no mar. Porém o albino retorna, salvo pelo próprio deus do mar, e bane o traidor de Immryr, que escapa para longe, sequestrando a amada rainha Cymoril em sua fuga. A partir daí começa de fato a saga.

Os autores não economizam na crueldade. No mesmo clima de império decadente, como uma Roma em seus últimos dias de bacanais, os melniboneanos são sádicos que matam seres humanos comuns sem remorsos como se fossem nada em meio a comilanças. Elric sacrifica virgens, tal qual uma Condessa Bathory albina, para banhar-se no sangue que lhe traz juventude. Uma espécie de Merlin cenobita, com o irônico nome de Dr. Jest, rasga bebês para ler suas entranhas, como numa bola de cristal, e as descarta num bueiro quando não encontra nada. A lista de atrocidades continua. É até difícil simpatizar com o próprio Elric que não é um herói, mas tampouco pode ser chamado de anti-herói. Impregnado por aquele sentimento rebelde do pós-guerra, Moorcock pintou a imagem da nobreza e das autoridades com as cores mais cínicas que podia – fenômeno que se repetiria quase vinte anos depois nos quadrinhos britânicos, de maneira mais satírica com o Juíz Dredd – e Elric parece mais um ditador alquebrado e joguete do destino com seus raros momentos de compaixão ou feitos grandiosos. É um grande mérito fazer o leitor amar a obra sem de fato simpatizar com seu protagonista e seus ideais.

Há ainda um forte aspecto místico na história. Os deuses de Melniboné, como os deuses gregos, são entidades vivas que interferem no curso da história e atendem os mortais, não sem cobrar seu preço como Elric descobrirá amargamente. São inseridos conceitos naturalistas como deuses elementais quando os irmãos Straasha, Senhor do Mar e Grome, Senhor da Terra, se afrontam numa demonstração de poder numa das sequências mais grandiloquentes e catastróficas dos quadrinhos. Há ainda os conceitos matemáticos dos Lordes da Lei e os Lordes do Caos. A esses últimos pertence o Senhor das Espadas, Arioch, que tem um papel central na trama de Elric.

Guiado por Arioch, Elric singra o reino em busca do traidor para libertar sua rainha, não só por amor, mas por interesse próprio, uma vez que essa é a responsável pelas poções e banhos macabros que o mantêm vivo. A busca o leva às Terras Jovens, e novamente está lá o espinho da questão imperialista. As tais Terras Jovens nada mais são que as colônias advindas das políticas expansionistas, o que fica bastante latente quando Elric questiona “Foi por isso que nossos ancestrais se bateram com o passar dos milênios? São esses os Reinos Jovens? Não vejo nada além de animais, lodo e madeira. Sinto a sujeira e o cheiro do medo. O que há aqui para nós, Cymoril? O que há aqui que não possamos tomar ou comprar… destruir ou anexar?”

O embate final com o antagonista traz enfim um dos elementos mais emblemáticos do personagem, a espada devoradora de almas, Stormbringer. A lâmina negra, cravada com runas místicas, é um ser vivo de grande poder. Poder, inclusive, de manipular as emoções de seu “dono”. É interessante ver como Elric que começa como o soberano de um império, termina como um outcast controlado pelo jogo político, pelos deuses e por sua própria espada. Não deixa de ser uma ironia com o stablishment, quando esses elementos representam as grandes instituições da sociedade: o poder, a igreja e o militarismo.

A arte do livro foi feita à cinco mãos, entre desenhistas, arte-finalistas e coloristas (Didier Poli, Robin Recht, Julien Telo, Jean Baptiste, Scarlett Smulkowski), e o que poderia ter sido uma bagunça é na verdade uma obra prima moderna. Apesar da quantidade de artistas envolvidos, há uniformidade em todo o trabalho e mal se percebe alguma alternância de estilo. Como bem afirmado por Alan Moore no prefácio do livro, esse realmente é o visual definitivo do Lobo Branco de Melniboné (admito eu, mesmo sendo um fã inveterado de Barry Windsor-Smith). A obra como um todo é uma grande adaptação desse que é um dos maiores personagens da literatura fantástica, da forma que ele merecia ser editado. Após ver esse material, mal posso esperar para ver a versão francesa que a Glénat fará de Conan, o Bárbaro.

A edição da Editora Mythos reúne dois volumes da edição da Glénat. O formato de 24×31, bem maior que o original inclusive, e o acabamento luxuoso estreou a linha Gold Edition, que já conta com outros títulos lançados. Para o volume 2 da saga, a Mythos aguarda o lançamento na França do tomo 4, para que possa ser compilado e publicado no Brasil.

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