Análise | Réquiem – Cavaleiro Vampiro

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Réquiem – Cavaleiro Vampiro é a divina comédia de Pat Mills. Em seu inferno, Mills joga todas as qualidades de pessoas que ele acha que merecem o castigo eterno e as separa por castas. Os atormentados podem surgir como zumbis, carniçais, lobisomens, vampiros, entre outra variedade de criaturas bestiais, de acordo com seus atos pregressos. Os vampiros, a casta mais alta, são aqueles que já eram cruéis em vida, que não negavam sua natureza má e sanguinária. Nazistas, genocidas, tiranos, assassinos, etc. Um desses é Heinrich Augsburgsoldado nazista, amante da judia Rebecca, morto no front soviético em 1941, renascido no inferno como um vampiro com a nova alcunha de Réquiem.

Depois há aqueles que eram perversos mas que ou escondiam sua índole ou acreditavam que faziam o certo. Fanáticos religiosos, políticos corruptos, plutocratas gananciosos e outras espécies. Clichê demais, é verdade, mas não importa. Mills está nessa realmente para espetar quem ele quer e no fim sempre funciona.

Ressurreição é o nome desse mundo pós vida infernal, que é um negativo do mundo real. Desde o mapa-múndi que troca de posição oceanos e continentes, até o tempo, que corre ao contrário. Em Ressurreição as pessoas rejuvenescem até virarem bebês e desaparecerem. Mais uma vez o roteirista aproveita para tecer suas críticas ácidas aos meandros do poder. Quando Réquiem questiona um vampiro mais velho, seu recém amigo Otto, do porquê de não existir tecnologia moderna em Ressurreição, a explicação é “manter o obscurantismo para continuar a usufruir dos privilégios e continuar sendo regentes dos amaldiçoados”. E como tudo nesse mundo é ao contrário, os vampiros têm seus arqueólogos, que ao invés de trazerem à luz coisas do passado, são incumbidos de fazerem com que todos esqueçam as lembranças do futuro. Ao menos nas regras, pois na prática as tecnologias modernas são guardadas para esses regentes.

Tudo isso, protagonista e cenário, é apresentado e estabelecido nas primeiras páginas do quadrinho que flui para uma trama de intriga política em meio a uma guerra milenar, a qual – sem muitos spoilers – Réquiem terá um papel central. Entram em cena figuras históricas como Calígula, Átila, Aleister Crowley (aqui chamado de Black Sabbat), Nero, Tomás de Torquemada, além de personagens da literatura como o senhor de todos os vampiros, Conde Drácula.

Todo esse cenário apocalíptico, semeado com cenas de extrema violência à Clive Barker representadas pela densa arte pintada do francês Olivier Ledroit – mais conhecido por trabalhos para a Heavy Metal – pode fazer parecer, numa rápida folheada, que esse quadrinho é uma leitura pesada e taciturna. Mas aí entra o que, para mim, é o grande diferencial da obra. O bizarro humor britânico de Pat Mills, típico de seus trabalhos com Dredd, Marshal Law e ABC Warriors. Réquiem é um gibi hilário, com tiradas e diálogos que parecem saídos dos sketches do Monty Python. Os mortos chegam na metrópole Necropolis ao som do capitão da nave anunciando “sejam bem vindos ao espaçoporto de Necropolis. A temperatura nos limbos é de 900°, com turbulências ectoplasmáticas.” Um dos vilões conspiradores é um vampiro tão antigo que já está no estágio de bebê, que vai para o berço com seu bonequinho de Jack Skellington chupando uma simpática chupetinha preta. Para completar o cenário cômico Mills ainda insere a figura do bufão no estilo Ukko de Sláine (de onde recicla também os espasmos de fúria). Esses elementos deixam a obra muito mais palatável e divertida (ei, gibi é diversão).

Réquiem é o sexto lançamento da linha Gold Edition da editora Mythos. A luxuosa edição com 168 páginas, compila os três primeiros capítulos originais (Ressurreição, Dança Macabra e Dracula). Apesar de não contar com um prefácio que introduza o contexto da publicação, no fim do livro há belos extras com pin ups e um bestiário deveras bizarro. Réquiem foi originalmente lançado pela editora Nickel em 2000 e republicado pela Glénat em 2016. Até o momento há onze capítulos da obra que ainda não se encerrou na França. A Mythos promete continuar publicando em compilações no Brasil, a depender da receptividade desse primeiro volume.

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